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São João del-Rei: Negligenciado e desconhecido, bairro Águas Gerais pede socorro e moradores cobram da gestão municipal

Os que residem no local garantem que há muitos anos são esquecidos pelo poder público e clamam para que o serviço seja estabilizado. O problema se torna mais grave em decorrência da pandemia do coronavírus.

05/10/2020 19h40 Atualizada há 2 semanas
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Por: Thais Marques
Com as frases “Preserve o que é nosso” e “Água para todos”, obra que custou R$ 300 mil aos cofres públicos segue inacabada e os moradores sem saneamento básico no bairro Águas Gerais. Foto: AMMASDEL REI
Com as frases “Preserve o que é nosso” e “Água para todos”, obra que custou R$ 300 mil aos cofres públicos segue inacabada e os moradores sem saneamento básico no bairro Águas Gerais. Foto: AMMASDEL REI

A pedidos de moradores, representantes da AMMASDEL-REI, o portal Mais Vertentes e o líder comunitário Luis Eduardo (Dudu) compareceram no bairro Águas Gerais, localizado no sobpé da Serra do Lenheiro, próximo das Gameleiras, na última quarta-feira (30). Moradores reclamam há anos do descaso do poder público sobre o fornecimento de água e o tratamento de esgoto no local, que corre “à céu aberto” e desemboca no Córrego do Lenheiro. Segundo dezenas de moradores que nos receberam, desde a gestão do ex-prefeito, Helvécio Reis (PT), moradores sofrem com o descaso dos gestores municipais e aguardam soluções, principalmente neste período de pandemia do novo coronavírus onde a questão deveria ser tratada com urgência pelo município.

"Prainha" seca devido à falta
de chuvas. 
Foto: AMMASDEL REI

 

 

No bairro, a única entrada é por uma rua que divide espaço com um córrego bem raso, que o margeia até o seu cruzamento à frente. O riacho estava completamente seco, onde o esgoto está sendo jogado in natura em um ponto próximo à entrada. Os moradores o chamam de “prainha”. No final da rua, a mesma se divide em dois pontos, uma improvisada ponte de madeira à direita, que desemboca em uma pequena rua sem saída e sem nome (embora no Google Street View esteja como o término da Rua das Gameleiras). E à esquerda, desemboca na Rua Santa Rosa de Lima.

Moradores precisam buscar a água
que não chega até as suas casas.
Foto: AMMASDEL REI

 

Em conversa com diversos moradores que residem na citada rua à direita, nos informaram que estão todos sem água nas caixas d'água há, mais ou menos, um mês e meio. Para terem acesso à água, eles coletam com baldes na entrada da rua em uma mangueira. O proprietário de um terreno próximo, que utiliza da água para os cavalos beberem, cedeu a água para os moradores encherem os baldes, utilizada para consumo e higienização de suas casas. “Na TV fala que a gente precisa lavar as mãos sempre. Com que água?”, comentou uma moradora. “Só Deus mesmo para nos avisar”, comentou outra moradora, que se agarra na fé católica na luta contra o coronavírus.

Foto: AMMASDEL REI

Segundo os moradores das Águas Gerais, o Damae não leva água e com isso precisam captar água da Serra do Lenheiro. Antigamente, eles pegavam a água de um filtro localizado próximo ao terreno já citado, foi construído na gestão do ex-Prefeito Helvécio Reis, para captar água subterrânea. Contudo, não podem utilizar da água porque foi considerada insalubre por ter fezes de vaca – há um curral próximo. Ao outro lado do curral, há uma cisterna que os moradores informaram que beberam água durante anos – até a construção do filtro. E agora, com a construção deste, não podem beber água nem de um nem do outro.

O pequeno riacho localizado dentro da Serra do Lenheiro, próximo à Rua Santa Rosa de Lima, tem um pequeno curso d'água, onde a mesma é captada e levada por canos, com a força da gravidade, aos moradores do bairro. Como o fluxo de água está escasso, em decorrência do período de estiagem, a água não tem força para subir nas caixas d'água, chegando somente em alguns pontos do bairro e nos primeiros andares. Esse pequeno fluxo d'água tem sido utilizado pelos moradores das Águas Gerais, onde desce pedras abaixo, e encontra com um outro córrego, formando uma cachoeira e chegando ao córrego que atravessa o bairro. 

Toda a água é represada para os moradores utilizarem para seu uso pessoal,  já que o outro córrego não consegue, por si só, atravessar todo o bairro e descer até o Águas Férreas. Por isso, na maior parte do seu percurso, a “prainha” está completamente seca – ou apenas com esgoto. “É muito triste acabar com o córrego assim. Mas ou é isso ou não temos água para beber ou tomar banho”, lamenta um morador. Além disso, a água não é tratada. Por mais límpida que seja, o córrego está a céu aberto e desprotegido, com mesma água sendo utilizada pelos moradores. é a que os moradores bebem, tomam banho e lavam vasilha. Inclusive, uma moradora nos informou que recentemente alguém havia colocado algum produto na água e, por sorte, alguém avisou para não dar às crianças. “Por sorte continuamos vivos”, terminou.

Os dois córregos – o que forma a cachoeira e o que tem suas águas captadas para uso dos moradores – se encontram próximo do final da Rua Santa Rosa de Lima, formando a chamada “prainha” que desce paralela ao asfalto - sim, lá tem asfalto - até atravessar a ponte improvisada e margear a Rua das Gameleiras. Depois, passa por debaixo da Rua das Gameleiras – onde marca o fim do bairro – e desce sentido o bairro das Águas Férreas. No percurso do córrego, ao final da Rua Santa Rosa de Lima, existe um muro do Damae, onde é possível ler “Preserve o que é nosso” – embora o próprio muro não esteja em nenhum condição de preservação – e “Água para todos” – embora no bairro a maioria não tem água. Segundo um morador, o muro foi construído para barrar as águas do córrego e captá-la para o povo. Entretanto, a força da água em tempos de chuva retirou sua sapata. E, também, não há qualquer cano que capte água do local. O morador informou que a obra custou R$ 300 mil (trezentos mil reais) aos cofres públicos, mas hoje está abandonada e parece mais uma ruína de uma construção antiga que algo novo.

Esgoto à céu aberto.
Foto: AMMASDEL REI

Os moradores informaram também que não há rede de esgoto, sendo que os moradores jogam os esgotos in natura dentro da “prainha” – que, lembrando, desce e vai para o córrego das Águas Férreas, que desemboca no Córrego do Lenheiro. “O Damae aqui não faz nada”, disse uma moradora. “Aqui é um bairro antigo, tem mais de quarenta anos, mas ninguém fez nada”, disse outro morador. “Mas as contas chegam”, completou outra. “Se deixar, antes da hora”. Uma moradora disse  que o bairro é tão negligenciado e desconhecido das autoridades públicas que um incêndio na Serra do Lenheiro tomou conta de parte da vegetação e ameaçou chegar nas casas mais próximas. Ao ligar para os Bombeiros, recebeu a seguinte indagação de quem estava do outro lado da linha: “Onde fica isso?”.

Em períodos chuvosos, a água continua sendo um problema, mas pelo sentido oposto. “Desce água do Senhor dos Montes e daqui da serra tudo aqui e vai para a ‘prainha’. Aí inunda toda a entrada do Águas Gerais”, explicou uma moradora. “Da última vez, um moço passou a nado”, explicou a moradora aposentada. “A água estava na cintura”, continuou. Com a Serra do Lenheiro formando um “paredão”, muita água desce nas chuvas e desemboca tudo em um ponto – o que causa alagamentos. Os moradores explicam que o muro construído pelo Damae não é suficiente para segurar as águas. “Sempre que chove, precisamos que alguém venha aqui e limpa a entrada [de folhas, pedras ou outros materiais que obstruem a entrada]. Senão, ficamos sem água”, explicou um morador. “O Águas Gerais é bem tranquilo. Fico aqui sossegadinha em casa, só eu e Deus. O maior problema é esse problema da água”, disse para nós a moradora aposentada. 

O líder comunitário Luiz Eduardo (Dudu), que atualmente não mora no bairro, mas nasceu e passou boa parte de sua vida nas Águas Gerais, disse que os moradores o procurou pedindo ajuda. “Se continuar esse calor, em duas semanas eles não terão nada de captação de água. Políticos nunca cobraram a resolução vinda do executivo e moradores nunca falaram com medo de repressão ou por de ameaças. Aí eles me chamaram para ajudá-los, para ver o que eu poderia fazer, foi quando eu acionei a AMMASDEL REI e o Portal Mais Vertentes para irem comigo até o local e fui atendido prontamente”, explica. 

Gestores municipais

O vereador Gilberto Lixeiro (AVANTE) reside na rua Santa Rosa de Lima, no bairro Águas Gerais. Moradores implicam que o vereador foi eleito com a intenção de ajudar o bairro, mas que até hoje nunca fez nada pelo bairro. “A gente que faz tudo para captar água. Ele tá oito anos na Câmara e nunca olhou pela gente”, disse outro morador. “Quando falta água aqui no bairro, o Damae sobe com caminhão-pipa e enche só a caixa d´água dele. Enche a piscina, a caixa d´água dele e vai embora”, denuncia um dos moradores. Além disso, a  população local informou que, "se alguém chega no local para fiscalizar a obra da Prefeitura, os filhos do vereador, que ficam à espreita, avisam rapidamente ao pai". De fato, nos deparamos com estes "famosos observadores".

Foto: AMMASDEL REI

Procurado pelo Mais Vertentes, o vereador Gilberto Lixeiro, que está no final de seu segundo mandato, e há oito anos faz parte do legislativo municipal, explica que na gestão anterior, do ex-Prefeito Helvécio Reis (PT), foi feito um poço artesiano no local. “A administração passada do prefeito Helvécio ‘embaraçou’ com tudo, aí tiveram que devolver o dinheiro e o prefeito Nivaldo não deixou. Hoje (05), eu fui até a casa do prefeito Nivaldo para ‘eles’ irem lá e limparem o poço, fazer análise da água, se pode ser usada para consumo ou não, e o Damae tomar providências para fazer a ligação dessa água no bairro Águas Gerais”, explica o vereador. Gilberto reforça que no bairro Águas Gerais ainda não tem serviço do Damae, passará a ter quando a ligação da água for concluída. 

“Além de não ter água, lá também não tem rede de esgoto, cai tudo dentro da praia”, afirma o vereador. “Eu tô correndo atrás desse poço artesiano que eu consegui na época do governo Helvécio; estava parado e agora o Nivaldo mandou eu e a engenheira [Gláucia Cantelmo - Superintendente de Execução de Projetos e Obras da prefeitura municipal] irmos no Agostinho [diretor de água do Damae] e lá ver o que está acontecendo, se essa água é potável. Se não for potável, ele [Agostinho] vai colocar outro poço artesiano. Se for potável, ele vai ‘ligar a luz lá’ e vai mandar água para a casa do pessoal. Aí lá vai ter que começar a pagar pela água”, afirma o vereador. 

“A água hoje é da Serra, é da natureza. Nós que ‘furamos os canos’, isso já vem de anos, agora eu que tô correndo atrás para resgatar esse poço furado na gestão passada. A  turma do Helvécio furou, abandonou tudo e pronto”, explica o vereador. 

Gilberto Lixeiro diz que quando Nivaldo assumiu, a gestão passada travou o dinheiro para não fazer o pagamento da obra e deixar para a próxima gestão, e que “se fosse um problema do Damae poderíamos ter a certeza de que enquanto representante do departamento autônomo municipal e vereador da cidade já teria “metido o pau”, pois também está sem água”, reforçou.

Sobre a denúncia dos moradores de que Gilberto recebe exclusivamente em sua casa um caminhão do Damae para fazer abastecimento, o vereador negou o fato. “É mentira, nunca foi caminhão pipa na minha casa, quem falou isso é mentiroso. Vai lá no Damae, liga e pergunta qual foi o dia que eu pedi um caminhão pipa na minha casa”, diz Gilberto. O vereador afirma que o caminhão foi para a casa de uma outra pessoa e que chegou a brigar com o diretor de água do Damae, Sr. Agostinho, dizendo que “lá não mora uma ou duas pessoas” que precisam do serviço. “A água lá tá fraca, na parte de baixo cai, na minha casa tá caindo água à noite". Portanto, segundo o vereador Gilberto Lixeiro "é mentira, na minha casa tem água, então não tá faltando”, explicou.

Segundo Gilberto, ele colocou um tambor do lado de seu portão, pois quando a água chega durante a noite, moradores têm ido até lá para buscá-la. Que as “partes altas” da rua não estão recebendo a água por causa do período de estiagem, o que não dá pressão para a pouca água que tem poder subir para essa parte. “Na parte de baixo da rua, a água está indo na torneira, mas não tá indo na caixa, aí colocamos o tambor para pegar. E a turma da parte alta da rua que não tem, pois não tem pressão. É da natureza, pois tá secando”, diz Gilberto. “Eu perco o meu mandato. Pode ir lá no Damae e perguntar qual dia eles abasteceram a minha casa. Se eles colocaram um litro de água na minha casa, eu renuncio ao meu mandato”, diz Gilberto.

Tentamos o contato com o diretor de água do Damae, o Sr. Agostinho, desde a última sexta-feira (2), mas não obtivemos retorno até o fechamento desta edição.

As Águas Gerais é um exemplo claro do que acontece nas gestões de São João del-Rei de muito tempo. Só veem a parte mais rica da cidade e negligenciam as periferias. É um bairro antigo, com problemas e demandas antigos, mas que todo mundo só lembra do local quando sai nos noticiários policiais. E sempre usam disso para continuarem a negligência. De gestão em gestão, os moradores continuam sem a solução para este problema da falta de água e tratamento de esgoto, problema que se torna mais grave em um período onde vivemos a maior crise sanitária dos últimos 100 anos. Garantir que saneamento básico seja eficiente e de qualidade, além de ser obrigação da gestão, é um direito da população e que deveria ser garantido pelos políticos municipais, independente da mesma pagar ou não pelo serviço.

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