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“A carne mais barata do mercado é a carne negra”

Por Helvécio Reis, professor e colunista do Botando os Pingos nos is

23/11/2020 16h08 Atualizada há 2 meses
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Por: Adriano Vianini
Imagem do momento em que João Beto foi espancado até a morte por dois homens brancos, enquanto uma mulher filmava a ação. Foto: EL PAIS
Imagem do momento em que João Beto foi espancado até a morte por dois homens brancos, enquanto uma mulher filmava a ação. Foto: EL PAIS

Estamos chocados. Será? Convivemos com fatos assim o tempo todo, e não reagimos. A morte de João Beto no estacionamento do Carrefour em Porto Alegre não é um fato isolado. É mais um caso! Sua repercussão é outra exceção. Na maioria das vezes, nem tomamos conhecimento desse tipo de violência. E muita gente nem quer tomar. “A carne mais barata do mercado é a carne negra”, denuncia Elza Soares.

Infelizmente, daqui a pouco todo mundo se esquece disso, o que nunca deveria esquecer. João Beto será mais um número na triste estatística da violência contra negros. E nem tomamos conhecimento dos casos que não ganham as estatísticas, e esses são incalculáveis. 

Por mais que me revolte com as cenas que vi pelas mídias, com os casos de que tomo conhecimento e por saber da violência que está impregnada contra os negros em nossa cultura, ainda assim não tenho a dimensão do sofrimento de quem de fato sofre o racismo na pele.

Recentemente, assistimos à morte de George Floyd pela polícia norte-americana e os atos do #blacklivesmatter. A violência contra negros pode explicar em parte a derrota do presidente Donald Trump. Podíamos, como seres humanos, ter aprendido alguma coisa com isso. Infelizmente não: lá nos Estados Unidos outros casos de violência contra negros ocorreram posteriormente; aqui no Brasil a toda hora.

O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. A lei que proibiu o tráfico negreiro é de 1850 e só aconteceu por pressão da Inglaterra, e nem foi o primeiro ato contra a escravidão. Mesmo assim, o Brasil ainda levou quase 40 anos para abolir o trabalho escravo. Os negros no Brasil podem ter deixado as correntes das fazendas, mas foram acorrentados à própria sorte. 

A violência contra negros está nos supermercados, nas escolas, nas ruas, dentro de casa, em todos os lugares. Dizer que não há racismo no Brasil é muito cinismo. Nem podemos continuar amenizando o racismo, como, por exemplo, o fazem juízes ao decidirem por injúria racial, abrandando penas contra racistas. 

Não conhecemos muitos médicos, psicólogos, advogados, juízes, promotores, professores universitários negros. Mas sabemos que a maioria das empregadas domésticas, pedreiros, trabalhadores braçais, presidiários, é negra. Não é Deus que quis um mundo assim. 

A maioria que vive em comunidades pobres no Brasil é negra. 75% dos brasileiros em extrema pobreza são negros. A vida média de um negro brasileiro é seis anos menor que a de um branco; muitos negros nem chegam a completar 60 anos. Jovens negros têm 2,7 vezes mais chance de serem mortos pela polícia. Enquanto a taxa de homicídios de brancos é 34 por 100 mil habitantes, a de negros é 98,5 por 100 mil. Além disso, negros ganham menos e têm menos acesso às melhores oportunidades.

Tenho orgulho de ter capitaneado a aprovação de cotas sociorraciais na UFSJ, antes mesmo de existir a lei de cotas. Como disse Grande Otelo, o racismo só se muda “com o tempo e com, principalmente, a educação”. Há estudos que atestam que a chegada de negros a cargos políticos mais altos nos Estados Unidos, como o presidente Barack Obama e agora a vice presidente Kamala Harris, tenha sido resultado das políticas de cotas adotadas por lá, que Trump quis revogar. Orgulho-me também de ter proposto e aprovado a lei que criou o Conselho Municipal da Promoção da Igualdade Racial de São João del-Rei.

Muitas vezes, nossa cultura escravagista não está às claras, como se dá nas agressões como sofreram João Beto, o menino João Manoel e muitos outros que ganharam essa lamentável notoriedade.

Helvécio Reis

 

Helvécio Reis é professor, ex-reitor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ - 2004 a 2012) e ex-prefeito (2013 a 2016). Escreverá quinzenalmente para a coluna Botando os Pingos nos is, do Mais Vertentes!

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