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Cultura Polêmica

Tiradentes: Após polêmica sobre a proibição da Congada, Igreja alega incompatibilidade no sincretismo religioso e afirma que “não tem a ver com preconceito”

Padre Alisson Sacramento diz que as manifestações do grupo Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia não condizem teologicamente com a fé católica e que “se é preconceito contra os negros, está sendo preconceituoso com ele mesmo”.

23/12/2020 18h05 Atualizada há 1 mês
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Por: Thais Marques
Grupo Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia. Foto: Eduardo Guerra
Grupo Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia. Foto: Eduardo Guerra

Uma denúncia feita pelo portal Notícias Gerais no dia 20 de dezembro expôs que o grupo Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia está proibido de fazer manifestações dentro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no município de Tiradentes. Segundo a reportagem, a proibição já perdura por cerca de um ano e cinco meses, pelo pároco local, Pe. Alisson Sacramento. O grupo alegou discriminação e preconceito religioso, segundo a reportagem.

Em entrevista exclusiva ao portal Mais Vertentes, o Padre recém nomeado Chanceler do Bispado, Alisson Sacramento, afirmou que a restrição foi feita pela incompatibilidade do sincretismo religioso do grupo com a fé católica, e que “se é preconceito contra os negros, está sendo preconceituoso com ele mesmo”. 

Ainda de acordo com a reportagem publicada pelo NG, Pe. Alisson Sacramento proibiu a entrada do Mestre Prego e sua Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

O Mestre Prego e seu grupo respeitam a decisão da igreja, mas questionam a natureza preconceituosa da decisão. 

“Correm comentários que é porque a gente usa a bandeira com a escrava Anastácia. Nós somos devotos dela porque ela foi uma escrava que tinha o dom da cura e curava muitos dos nossos irmãos nas senzalas. […] Essa é nossa história, dolorosa, não podemos entrar.”, disse o Mestre Prego em entrevista ao Notícias Gerais. Confira na íntegra.

Versão da Igreja Católica

Padre Alisson Sacramento.
Foto: Diocese de São João del-Rei

Em entrevista exclusiva ao Mais Vertentes, o Padre e nomeado Chanceler do Bispado, Alisson Sacramento, afirmou que a decisão não foi preconceituosa e sim baseada nos sincretismos da Igreja Católica, que, segundo o Padre, são diferentes deste grupo de Congada. “Nós damos todo apoio possível às questões culturais, mas a questão deste Congado em si, tem algumas questões que estão em divergência com a fé católica”.

Padre Alisson diz que quando chegou na paróquia, questionou ao Capitão da Congada, Mestre Prego, o motivo do nome do grupo ser Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia. Segundo o Padre, a Escrava Anastácia não é cultuada pela Igreja Católica. “Para que nós tenhamos um movimento, um ritual na Igreja Católica, os santos celebrados, têm que passar pelo processo de canonização, para que tenha o seu culto aprovado na Igreja”, afirma.

O pároco diz que, mesmo que dentro da Igreja Católica não exista nenhuma “aprovação” da Escrava Anastácia enquanto santa, ela pode ser reconhecida como um símbolo de luta pela liberdade. “Nós sabemos que a escravidão foi um grande mal, não só no Brasil, mas em toda humanidade. A gente tem que combater qualquer forma de escravidão. Vivemos na busca da dignidade da pessoa humana. Então ela pode ser tida como apelo à luta pela liberdade, não posso negar de forma alguma, mas não a reconhecemos como santa”, explica Pe. Alisson.

Segundo o pároco, após a conversa com o Mestre Prego no ano passado, um advogado representando o grupo o procurou pedindo a aprovação da manifestação dentro da Igreja. O mesmo afirma que as decisões são em conjunto com a Diocese e que, neste caso, não há preconceito. “Eu sempre tive o contato direto com a Diocese e o que eu tenho feito não está nada contrário à Igreja e nem mesmo o que está mais difundido aí, que é a questão do preconceito. Não é nada de preconceito, de forma nenhuma, a começar que eu também sou negro. Se é preconceito contra os negros, então eu estou sendo preconceituoso comigo mesmo", ressaltou Pe. Alisson. 

Em relação ao sincretismo religioso, Pe. Alisson afirmou ter visto declarações do Mestre Prego onde diziam que “é necessário fazer a congada para desencarnar os irmãos que estão presos nesses lugares”. “Aí que já entra mais afundo ainda a questão da nossa fé católica. Essa questão do desencarnar está muito mais ligada à religião espírita ou de outras vertentes que estão dentro do espiritismo. Para nós, na fé católica, nós acreditamos na ressurreição e isso vai ao contrário da reencarnação”.

“Como nós vamos acolher na Igreja Católica uma manifestação, que pode ser uma manifestação cultural, sem dúvida alguma. Uma manifestação em vista de um ideal de liberdade, um ideal pela dignidade da pessoa humana, um ideal pelo respeito aos negros. Não podemos negar que isso possa ocorrer. Mas da forma estridente, que quer fazer algo que já ocorria aqui e que quer dar continuidade. Algo constante, tido a cada 15 dias quer fazer… Então isso vai contra os princípios da fé católica. Vai contra a nossa visão teológica, que prega a ressurreição”, afirma.

Padre Alisson afirma que a Diocese possui várias manifestações de grupos de Congados em várias paróquias e que “louva à Deus por isso''.

“São manifestações que nascem realmente da fé. Eu inclusive citei para os paroquianos que no Rio das Mortes tem um Congado secular. Esse Congado que está aqui, ele é recente, foi depois de 2014 que ele iniciou, então não tem nada histórico. O Congado que tem no Rio das Mortes eu sei que é histórico, é centenário. As pessoas que participam dele são pessoas que professam a fé católica, estão em vida ativa na Igreja. Essas questões nós temos que levar em consideração, porque vai na questão do sincretismo religioso”, explicou Pe. Alisson. 

De acordo com o Padre, a igreja não aprova o sincretismo religioso como mistura de crenças. “A igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos é propriedade da Igreja Católica. Não sou eu o dono, não sou eu o proprietário, é a Igreja Católica. Eu estou à frente, coordenando os trabalhos que são realizados. Sendo patrimônio da Igreja Católica, o culto prestado ali deve estar em acordo com a nossa fé”.

Padre Alisson reforça que não vê problema algum em dialogar com grupos de outras religiões e sincretismos para trabalhos sociais. “Podemos ter um diálogo com eles para um outro trabalho social, até tenho tido diálogo com um outro grupo que compreendeu muito bem a questão colocada. É um trabalho social que eles acham que também seria válido, eu penso que isso não teria problema nenhum. Dar um apoio, como aqui eu tenho feito. Tiradentes, por exemplo, tem o asilo de idosos, que é dos espíritas e em vários momentos a gente dá apoio social à eles, tanto social quanto religioso àqueles idosos que estão ali.”

 

O Mais Vertentes está aberto à manifestação de resposta do Mestre Prego e seu grupo de Congada de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia.

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