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Opinião Pingo Nos Is

A bagunça como instrumento do negacionismo e da incompetência, por Helvécio Reis

Helvécio Reis, professor

01/02/2021 17h00 Atualizada há 4 semanas
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Por: Helvécio Reis
Imagem: Reprodução - internet
Imagem: Reprodução - internet

Depois de tanta confusão chegou a vacina! Em pouco mais de 10 dias foram vacinadas cerca de 1,25 milhão de pessoas. Isso equivale a 0,286% da população brasileira. Se tomar como meta a quantidade de doses, 0,596% vira 0,298%. Nesse prazo, o resultado da vacinação é pífio e as metas de imunização de rebanho ficam comprometidas. Se já não bastasse isso, espalham-se os casos de fura-filas (autoridades e “amigos” e familiares de autoridades) por todo o Brasil. Somam-se a isso a perda de vacina por mau acondicionamento no Rio e o furto de dois frascos (20 doses) aqui na UPA de São João del-Rei. Tudo isso porque nosso plano de vacinação é um desastre, produzido à luz da incompetência e do negacionismo. Haja bagunça!

Antes o Governo Federal não queria a vacina. Tudo fez para expor as pessoas: é o Jair do Caixão contra o Zé Gotinha. Apostou-se que não morreriam mais de 750 pessoas (a referência era o número de mortos da H1N1): já são mais de 220.000 mortos, e os números continuam assustando, e o caos não para de vencer seus próprios limites. Estruturas de saúde estão colapsando em vários lugares do país, e com isso mais pessoas morrendo. Falta oxigênio! Como pode?! Como se conseguiu descer tão fundo no abismo?

Houve um tempo que se recomendava o tratamento precoce, cuja eficácia não tem comprovação científica. Se fosse eu que tivesse receitado isso, já teria tomado um sem número de processos dos Conselhos de Medicina por exercício ilegal da profissão, há muito tempo. Entretanto, o que fazer quando os próprios médicos insistem com o tratamento precoce? Eles negam a ciência, a mesma que fez a prática médica avançar tanto para o bem da humanidade. Se valem a (hidroxi)cloroquina, ivermectina e nitazoxanida para a Covid-19, também vale a injeção de ozônio no ânus, um procedimento disseminado por um médico prefeito de Itajaí – charlatanismo puro!

Contrariando os pessimistas, a ANVISA aprovou há 12 dias, por unanimidade, o uso emergencial das vacinas CoronaVac e Osford AstraZenica. Assim como o SUS, a ANVISA também é pública! De lá para cá, viram-se shows de marketing e promoção pessoal que têm sido respondidos por agressões mútuas entre Governo Federal e Governo do Estado de São Paulo. Em meio à perda de energia dessas autoridades, está o povo brasileiro, ansioso pelo acesso à vacina, quando não adoecendo e morrendo. Nunca houve uma coordenação central das ações de combate à pandemia e, agora, de difusão das soluções. É uma pena que se faça isso por pura política às vezes negacionista, que explica boa parte da crise sanitária que o Brasil tem enfrentado desde o início dela: uma falha imperdoável do presidente, ministro da Saúde e de alguns governadores que seguem essa horda. O governador Zema de Minas Gerais decidiu abrir tudo, mesmo o Estado registrando recordes de casos e de mortes nos últimos dias: é o Minas Consciente bolado pela falta de consciência do Governo. 

Negacionismo e incompetência andam de mãos dadas de forma criminosa no Brasil. Como consequência, não há um plano nacional de vacinação detalhado, transparente e eficaz. As autoridades de cada município e Estado fazem o que lhes dão na telha no varejo, tentando no atacado seguir, quando o egoísmo deixa, o “plano” existente. Por falta desse plano, prefeitos, governadores, secretários de saúde e agentes de combate à doença perdem um tempo preciosíssimo com explicações intermináveis sobre a escala da vacinação. Quanta bagunça! 

Não há vacinas para todas as pessoas, o que por si só recomendaria o detalhamento de cada grupo prioritário, subdividindo-o portanto em subgrupos. Esse quadro propício para um filme hollywoodiano favorece oportunistas e “espertalhões” que tiram proveito de seus cargos e poder. A vacinação de todas as pessoas é legítima! Não é o fura-fila! Suponho que haja alguma justificativa plausível para as muitas denúncias que aparecem em nossa cidade. 

Essa vigilância paranoica da fila só está acontecendo porque falhamos enquanto sociedade e porque há poucas vacinas.

Se tudo funcionasse conforme os padrões do SUS e dos programas de vacinação exitosos que o Brasil já empreendeu, com o ritmo atual das compras, faltaria vacina para toda a população, inclusive e principalmente a segunda dose, sem a qual os esforços de imunização poderão se perder. Na velocidade que pode se conseguir com a capilaridade do nosso SUS, e tendo vacina e seringas – importante lembrar disso! – toda a população brasileira poderia ser rapidamente vacinada. Sobraria vacina inclusive para o pessoal negacionista que quiser mudar de ideia: sem furar fila e sem precisar se vacinar escondidinho em casa.

Já que o Governo Federal decidiu agora correr atrás do prejuízo de imagem que lhe custaram o negacionismo e tanta incompetência, melhor usar a logística que justifica a presença do ministro da Saúde no Governo, senão, dá um... até logo para ele!

Está passando da hora de organizar a bagunça! Ou a bagunça é proposital?

 

Helvécio Reis, professor

Helvécio Reis é professor, ex-reitor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ - 2004 a 2012) e ex-prefeito (2013 a 2016). Escreverá semanalmente ou quinzenalmente para a coluna Botando os Pingos nos Is, do Mais Vertentes!

 

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