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Opinião Pingos nos Is

O flagelo do povo brasileiro. Por Helvécio Reis, professor

Espero que a coragem que nos falta ressuscite ao resto do mundo para o julgamento do calvário do povo brasileiro.

06/04/2021 14h01 Atualizada há 2 semanas
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Por: Helvécio Reis
Jair Bolsonaro aplaudido pela morte e pelo Covid. A visão ácida do cartunista alemão Luff, em charge publicada no jornal alemão Stuttgarter Zeittung em 27 de março.
Jair Bolsonaro aplaudido pela morte e pelo Covid. A visão ácida do cartunista alemão Luff, em charge publicada no jornal alemão Stuttgarter Zeittung em 27 de março.

O Brasil ultrapassou praticamente os 12 milhões de casos confirmados. São 12 milhões de histórias: muitas cenas dantescas nas UTIs, muita gente morrendo asfixiada, dor e sofrimento. Mais de 310 mil pessoas perderam a luta contra o vírus. Isso sem falar na subnotificação que pode elevar os dados oficiais a números impensáveis. 

Com números em descontrolada ascensão, recordes diários, assumimos enquanto país o primeiro lugar no ranking da tragédia mundial de novos casos e média de mortes. Infelizmente, parece não haver refresco: o Brasil pode chegar a números impressionantes de morte: 5 mil por dia e 100 mil por mês. O Brasil é, hoje, um laboratório natural de cultura do vírus.

Fecha tudo, abre tudo (até a casa da luz azul!), fecha mais ou menos, permite isso, não permite aquilo... Bravatas, oportunismos políticos, rompantes autoritários, incompetência misturada com negacionismo e necropolítica... Nenhuma economia irá suportar o esticamento dessas ondas mal controladas, para inglês ver. O prefeito de Araraquara mostrou ao Brasil que não dá para negociar com um vírus tão incerto e agressivo, mas tem sido muito ameaçado de morte por isso. Durante o período de lockdown (não se pronuncia look down!), esse município colheu benefícios; viu seus números de casos e mortes despencarem. Vários países fizeram a mesma coisa: a Nova Zelândia e Austrália chegam a fechar tudo: basta que surja um único caso novo. 

Araraquara botou em prática a cartilha da OMS de enfrentamento da doença: isolamento social, lockdown, uso de máscara e álcool em gel e testagem. Enquanto isso não se faz, a picaretagem anda solta: queda de casos por falta deliberada de testagem, por mudança de critérios de registro, e por aí vai a criatividade da nova política. 

Países que estão vacinando em massa começam a colher resultados positivos: Israel chegou a registrar 65 mil novos casos em média por dia, quando iniciou sua campanha de vacinação. Nos últimos dias, a média de casos em Israel vem despencando e deverá revelar menos de mil novos casos diários nos próximos dias. Em Israel e Espanha, Já acontecem eventos públicos que autorizam a participação de pessoas vacinadas. 

Vacina e lockdown funcionam!

Com autoridades completamente desoladas, desqualificadas, perdidas, quebrando a cabeça, sem uma liderança nacional, sem um plano nacional de enfrentamento da pandemia, o Brasil martiriza-se no calvário da politização da doença, tomba com a antecipação das eleições de 2022; perde energia com debates que não priorizam o combate à doença; flagela-se diante da omissão dos políticos. Dizer que um impeachment agora geraria uma crise é “conversa para boi dormir”: já estamos atolados na areia movediça de uma crise sanitária, social, moral que só tem como precedentes as guerras assassinas do século XX. Espero que a coragem que nos falta ressuscite ao resto do mundo para o julgamento do calvário do povo brasileiro. 

O nosso presidente confronta todas as medidas sanitárias e tergiversa quando percebe que seus argumentos não se sustentam. O caso da vacina é emblemático: “eu, Jair Bolsonaro, não sou contra a vacina, mas sou plenamente favorável a esse tratamento preventivo que nós temos no Brasil”. Tratamento preventivo sem nenhuma eficácia científica comprovada que ele, presidente, inventou! E ainda é o primeiro a dizer, como o quarto novo ministro da saúde expressou a respeito: vacinar “nem fodendo”. 

Nossa população, que perdeu em algum momento ou lugar a empatia, a solidariedade, a fraternidade, chega a reagir com ceticismo e desprezo: desafia o vírus, viaja de férias e faz festas como se nada estivesse acontecendo. Em que mundo frio estamos vivendo?! Somos todos aqueles que não respeitam o momento de luto que vivemos, a gravidade sanitária que enfrentamos, os amigos e conhecidos que perdemos e de quem não nos despedimos. Somos todos cúmplices e artífices dessa mortalidade!

As compras de vacina são tão improváveis quanto o rio correr à montante. 19,4 milhões de pessoas foram vacinadas até o momento: menos de 10% da população. Sem plano, os cronogramas de entrega de vacina viraram piada de mau gosto. E assim mesmo quando chegam, não são distribuídas: Minas Gerais é um dos piores estados no ritmo de vacinação, mesmo sendo dotado de uma capilaridade invejável. 

Infelizmente, o Brasil não poupou e não poupa nos erros! 

Se não recuperarmos nosso espírito de sociedade, vamos ver cada vez mais gente – jovens, filhos! – morrerem nas filas crescentes de espera por uma vaga na UTI. O vírus mata mesmo, com ou sem físico de atleta! Se nos falta a seriedade, frase atribuída a Charles De Gaulle, não deveríamos nos transformar no “povinho” da piada cruel com a nossa história: por algum motivo perdemos nossa humanidade e transformamo-nos num povo frio e egoísta. 

 

Foto: Arquivo pessoal

Helvécio Reis é professor, ex-reitor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ - 2004 a 2012) e ex-prefeito (2013 a 2016). Escreverá semanalmente ou quinzenalmente para a coluna Botando os Pingos nos Is, do Mais Vertentes!

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