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Opinião Artigo

34 anos de UFSJ: o que comemorar?

Em lugar da alegria do parabéns para a UFSJ, só consigo expressar dor, que pode ser particular, mas é tudo o que consigo hoje em meu manifesto de desabafo, revolta e de medo. Por Helvécio Reis, professor.

20/04/2021 12h14 Atualizada há 3 meses
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Por: Helvécio Reis
UFSJ. Campus Santo Antônio, no centro de SJDR. Foto: UFSJ
UFSJ. Campus Santo Antônio, no centro de SJDR. Foto: UFSJ

21 de abril de 2021. UFSJ: 34 anos de instituição federal, 19 anos de universidade federal. Temos muitos motivos para celebrarmos a Universidade Federal de São João del-Rei, a nossa UFSJ. Sua história é repleta de razões para otimismos: muitos desafios superados, muitas alegrias proporcionadas, muitos futuros construídos. Mas prefiro dar uma pausa nessas celebrações neste momento. Haverá mais adiante oportunidades para a gente se lembrar de sucessos, vitórias, e até mesmo de erros que nos fortaleceram enquanto instituição.

Neste momento, prefiro a reflexão. Em lugar do parabéns para UFSJ, prefiro lamentar os momentos difíceis, duros e trágicos que vivemos, especialmente no Brasil, que atingem frontalmente a UFSJ. Nada há nisso a comemorar!

A Universidade é fonte do conhecimento. No Brasil, as universidades públicas são vanguarda em pesquisa científica, em ensino de qualidade e em projetos de extensão que aproximam principalmente os segmentos menos assistidos e mais marginalizados dos recursos públicos e da esperança ao acesso “a um lugar ao sol”. Nas universidades públicas encontram-se profissionais com competência, técnicos comprometidos e alunos engajados. A UFSJ não é diferente disso. Sua existência transformou o Campo das Vertentes, o Alto Paraopeba, o Oeste de Minas e as veredas da Serra de Santa Helena, e valorizou e propagou o que há de melhor nessas regiões. 

Infelizmente, o país foi tomado por um grupo de radicais negacionistas, terraplanistas, necropolíticos. Desde 2016 vêm-se promovendo ataques sistemáticos e intensos, covardes mesmo, contra as universidades federais. E esse modus operandi não é por acaso! O plano é destruir o maior patrimônio do conhecimento da população brasileira: um dos poucos redutos da racionalidade. A UFSJ está no meio disso: orçamentos minguados; autonomia universitária atacada insistentemente até com a nomeação de interventores e de reitores sem respaldo da comunidade universitária; perseguição política; deturpação das atividades universitárias, e por aí vão-se os absurdos. Entre os ataques mais recentes está a nomeação de Claudia de Toledo para a presidência da Capes: currículo fraco, titulação questionada, que se soma aos esforços de destruição da ciência. O CNPq transformou-se num gabinete, e cientistas viram uma das instituições mais respeitadas do mundo desmilinguir-se, desaparecendo do cenário científico mundial. 

A ciência brasileira sobrevive capengando, sem financiamento, mantida às custas do próprio pesquisador e de sua coragem, justo no momento em que mais precisamos dela. O Brasil perde muitos cientistas, enquanto sua credibilidade desce ladeira abaixo. O país está sendo isolado e ridicularizado mundo afora.

De igual forma, a ciência está sendo confrontada, negada, em inúmeros atos: devastação ambiental; incentivo ao medicamentos sem qualquer eficácia comprovada cientificamente; ataques a órgãos credenciados pela ciência, como é o caso da OMS e Anvisa, que fazem ciência ou pelo menos cobram e zelam por seus resultados; estímulo a comportamentos que provocam as orientações científicas de órgãos sanitários mundiais, como o uso de máscara, o distanciamento social; invasão insana de hospitais; agressão a médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde que desafiam a falta de lucidez e ainda conseguem reunir forças – que nem sabemos de onde – para continuarem sua empreitada; falta de compaixão com pessoas e famílias que sofrem com perdas para a Covid; politização da doença; desqualificação, deboche e falta de vacinas que se somam à ideologia negacionista do atual governo. 

Estamos à beira de 400 mil mortes. Uma a cada 20 pessoas ou menos já contraíram a doença. São centenas de milhares de histórias. Cicatrizes que não vão se curar facilmente. Neste contexto, eu não consigo comemorar 34 anos de existência da UFSJ, mesmo sabendo que a UFSJ é forte, que sua comunidade é guerreira a ponto de sobreviver neste caos e de empunhar bandeiras contra o desmonte, a incompetência e a política do suicídio atuais.

Alivia meu coração saber que a universidade pública federal já passou por momentos dramáticos de sucateamento, mas que não correu da luta e não se intimidou diante das ameaças. A existência da UFSJ me consola e me conforta. Pelo pró-reitor que perdemos, pelos alunos que partiram, pelos pais de alunos que nos deixaram, pelas concidadãs e concidadãos de quem não podemos nos despedir e eles de nós, pelas pessoas que sofrem por falta de amparo e por perderem a esperança diante da realidade de um governo doente... meus respeitos, meu silêncio. Em lugar da alegria do parabéns para a UFSJ, só consigo expressar dor, que pode ser particular, mas é tudo o que consigo hoje em meu manifesto de desabafo, revolta e de medo.

Viva a UFSJ! Que viva a UFSJ!

Foto: Arquivo pessoal

Helvécio Reis é professor, ex-reitor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ - 2004 a 2012) e ex-prefeito (2013 a 2016). Escreverá semanalmente ou quinzenalmente para a coluna Botando os Pingos nos Is, do Mais Vertentes!

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