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Polícia Racismo

São João del-Rei: Mesmo desencorajadas, funcionárias denunciam crime de racismo em supermercado

“Ele cuspiu no meu caixa. Dói muito ver uma pessoa que fez isso estar na rua impune”, lamenta uma das vítimas

30/04/2021 17h56 Atualizada há 1 semana
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Por: João P. Sacramento
Fachada do supermercado Bahamas, em São João del-Rei. Foto: Internet / Reprodução
Fachada do supermercado Bahamas, em São João del-Rei. Foto: Internet / Reprodução

Quase uma semana após a divulgação do suposto crime cometido em um supermercado no bairro Fábricas, em São João del-Rei, o Mais Vertentes conversou com as duas funcionárias que sofreram racismo por um cliente no hipermercado Bahamas, no último domingo (25). Bastante abaladas, M.T.C., de 26 anos, e T.A.A., de 20 anos, contaram como foi o momento da agressão e o suporte que estão tendo.

De acordo com M.T.C., foi a primeira vez que sofreu racismo em seu local de trabalho, mas garantiu que já havia sofrido anteriormente. Ainda segundo ela, lidar com clientes mal-educados é, infelizmente, uma realidade, porém, não foi o caso do último domingo.

O fato ocorreu no início da noite e, de acordo com o relato de T.A.A., de 20 anos, ela estava trabalhando em um dos caixas e começou a registrar as compras de um cliente. Em dado momento, este abaixou a máscara de proteção contra Covid-19 que ele usava. Imediatamente, conforme protocolo e o Decreto Municipal, ela solicitou ao cliente que retornasse com a máscara e cobrisse seu nariz e boca.

O homem não acatou o pedido da funcionária e passou a ofendê-la moralmente e proferiu injúrias raciais à jovem. Ele ainda disse que era amigo dos donos do supermercado e ela seria demitida. Testemunhando o fato, M.T.C. chamou a atenção do cliente, pedindo a ele mais educação para com a caixa. Após a repreensão, o homem também passou a proferir injúrias raciais contra ela.

Neste momento, M.T.C. abandonou seu posto de trabalho e foi chamar a polícia. “Eu fui duas vezes chamar. Eu saí do meu caixa e fui chamar. Aí o policial informou que não tinha viatura e era só aguardar, mas demorou muito pra chegar”, afirmou. Da segunda vez, a funcionária parou uma viatura na rua e foi atendida.

O autor, que já havia saído até o estacionamento para pegar seu carro, foi abordado pelos militares. Mesmo a pedido da polícia civil que pediu para não citar o autor, o mesmo foi identificado como sendo o cidadão C.H.A.J, de 38 anos. Indagado sobre a denúncia, ele negou ter ofendido as funcionárias, e apresentou seu amigo como testemunha dos fatos.

As vítimas também apresentaram testemunhas e disseram que vários clientes que ali estavam, presenciaram as ofensas por parte do autor, mas que não fizeram nada. “Quando aconteceu tinha tanto cliente dentro da loja. As pessoas viram o que aconteceu, ouviram o que ele disse, mas continuaram passando compras normalmente. Ninguém falou nada”, afirmou M.T.C.

Suporte do Supermercado

“Teve um momento, que eu estava mal, fui chamar a polícia e o gerente falou que não precisava, que não era pra ir. Mas isso não me impediu. Eu fui porque isso é crime”, conta M.T.C. Ainda de acordo com as vítimas, a empresa ofereceu suporte psicológico e jurídico após uma semana do fato ocorrido, mas as funcionárias só aceitaram o apoio psicológico. “Jurídico eles também ofereceram, mas a gente não quis por motivo deles tentarem “passar pano” na situação”, afirmou T.A.A. 

Tal reação foi explicada pelo relato de M., que contou que, no momento em que quis buscar a polícia, foi orientada a desistir pelo gerente. “É uma sensação horrível, eu me senti tão sozinha, porque  só eu e a menina que sentiu a dor. Na hora que eu fui chamar a polícia, o gerente a todo momento dizia "Não precisa, não precisa". Tentando controlar a situação, mas eu disse: ‘isso não é normal’”, relata M.T.C.

De acordo com o Gerente de Marketing do Grupo Bahamas, João Paulo Rodrigues, “a gerência da loja foi acionada por duas colaboradoras, que teriam sido ofendidas por um dos clientes, momento em que a polícia foi acionada”. Rodrigues ainda afirmou que, após a atuação da gerência da loja, “os setores administrativos passaram a apoiá-los no tratamento da questão”.

De acordo com o representante do Grupo Bahamas, “lamentavelmente, casos como esse estão presentes na sociedade. Nós do Grupo Bahamas prezamos por um ambiente confortável e de respeito à todos os nossos colaboradores e clientes e suas diversidades, promovendo o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade, religião e quaisquer outras formas de discriminação.

Questionados, o grupo de supermercados negou ter contato pessoal com o agressor e garantiu que a empresa repudia qualquer tipo de preconceito e “estamos à disposição dos nossos colaboradores para apoiá-los sempre”.

“Sim, estamos dando todo o suporte aos colaboradores. Psicológico e o nosso departamento jurídico está à disposição das mesmas para apoiá-las no que for necessário, mas as funcionárias já estão devidamente assistidas”, concluiu J.P. Rodrigues.

O agressor foi liberado

Após a denúncia, conforme estipulado em Lei, o cidadão foi levado até a sede da Delegacia de Polícia Civil. Os militares confeccionaram um boletim de ocorrência e, após ter assinado o termo circunstanciado de compromisso para comparecimento em audiência perante o poder judiciário, o cidadão foi liberado.

De acordo com a vítima T.A.A., o tratamento na delegacia foi diferente. Enquanto as vítimas aguardavam do lado de fora, o agressor ficou dentro do prédio, “e toda hora ele saía, debochava e nisso eles (os policiais) falaram que tinham que liberar ele”.

Essa segunda vítima confirmou que M. foi quem tomou a iniciativa de procurar a polícia. “Eu tenho certeza que, se não fosse isso, ninguém teria essa reação”. “Foi horrível, porque ele ameaçou a gente, falou que ia voltar. Ele cuspiu no meu caixa. Dói muito ver uma pessoa que fez isso, estar na rua impune”, lamentou T.A.A.

O advogado, Gilberto Silva e suas clientes. Foto: Gilberto Silva

O que diz a Defesa

O advogado responsável pelas vítimas neste processo é o Dr. Gilberto Silva. “Eu fui procurado, em Belo Horizonte, tendo em vista a minha especialidade em crimes raciais”, informou Silva.

O advogado informou que, verificando o B. O., ele percebeu um equívoco por parte dos agentes que conduziram a abordagem. Ainda de acordo com o advogado, o fato consta no histórico do boletim de ocorrência como TCO, que seria de menor potencial ofensivo. O que difere do ocorrido.

Vale lembrar que, no caso de injúria racial, o agressor deve ser preso em flagrante, conduzido a delegacia e deve ficar detido até o pagamento da fiança. Porém isso não ocorreu, pois os agentes que efetuaram os trâmites, alegaram que não seria possível a condução e a apreensão do mesmo, por ser um crime de menor potencial ofensivo.

O advogado das vítimas já está em SJDR para fazer uma representação criminal perante a polícia civil, para que haja abertura do inquérito policial. “A gente espera que no final haja o indiciamento do mesmo”, concluiu o advogado.

O portal não conseguiu falar com a polícia civil de SJDR.

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