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Triste espetáculo

Espetacularização do homicídio ocorrido SJDR

Transformando tragédia urbana em espetáculo midiático

Adriano Vianini

Adriano VianiniReflexões sobre o cotidiano.

02/10/2019 15h14
Por: Adriano Vianini
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Vídeos, fotos e comentários desastrosos foram enviados e compartilhados pelo WhatsApp, inclusive da vítima agonizando próximo da morte. Foto: internet
Vídeos, fotos e comentários desastrosos foram enviados e compartilhados pelo WhatsApp, inclusive da vítima agonizando próximo da morte. Foto: internet

Passadas algumas horas após o triste homicídio que aconteceu na manhã desta sexta-feira (1), no centro de São João del-Rei, onde um homem foi morto à tiros devido, segundo à polícia militar, envolvimento com a mulher do suspeito, foca suas atenções agora nos locais onde percorreu e o que motivou mais esta inominável tragédia urbana.

 

Natural que seja assim. Uma cidade média como SJDR, não muito pacata como muitos pensam, e ao mesmo tempo efervescente, o que aconteceu nesta manhã foi fruto de uma coleção de indefiníveis aberrações que, por sua extrema gravidade, causam indignação, medo e até comoção que merecem punição e, claro, repercussão na mídia.

 

Ocorre que não é apenas o suspeito de homicídio, de 38 anos, que merece a condenação. O papel que mídia local está exercendo diante desta tragédia urbana e assustadora, a exemplo do que tem feito em relação a tantos outros homicídios que raramente são divulgados, se revela objeto e passível de críticas.

 

A mídia local tem todo o direito e, mais que isto, o dever de noticiar o triste fato como a que estamos acompanhando, ao vivo e em cores. Fornecer informações de interesse público é uma das nossas atribuições (também me incluo). Porém, a morte de um ser humano, ainda mais nas circunstâncias em que ocorreu (visto ao vivo, filmado, fotografado e compartilhado pela maioria das pessoas que ali estava e não podia fazer nada), tornou-se um show de horrores e com coberturas sensacionalistas e capengas dos nossos colegas jornalistas.

 

Aprendemos em faculdades de jornalismo sérias que o tratamento de assuntos desta natureza pressupõe cuidado extremo e, principalmente, não expor de forma enfática a vítima. Não por acaso. É tênue, muito tênue, o limite que separa a informação de interesse público da notícia convertida em espetáculo ou o famoso “furo de reportagem”.

 

Infelizmente, muitos colegas da imprensa romperam este limite no caso em análise. Boa parte da mídia está fazendo a cobertura do fato como uma grande tragédia de São João del-Rei. Não com o nobre propósito que deveria motivá-la – garantir que aberrações como esta não se repitam, algo possível por meio da divulgação permanente de informações corretas e isentas, fruto de pesquisa e investigação sérias, revelando seu compromisso com a sociedade.

 

As redes sociais contribuíram ainda mais para este espetáculo midiático. Infelizmente, vivemos em uma espécie de Black Mirror - série respeitada e premiada que mostra nossa triste realidade perante às novas tecnologias. Vídeos, fotos e comentários desastrosos foram enviados e compartilhados pelo WhatsApp, inclusive da vítima agonizando próximo da morte. Mas as pessoas não tiveram dó e nem piedade. As mensagens foram compartilhadas e a mídia local, claro, se beneficiando dessas aberrações.

 

As rádios locais, especialmente à tarde, davam cobertura a cada 30 minutos. Repórteres enviados ao local, entrevistas ao vivo com pessoas que presenciaram o fato, e até com o policial responsável pela apuração. A "mídia eletrônica" - se posso chamar algumas assim - não poupou nem o vídeo onde a vítima sofre duros golpes na cabeça, no corpo e até tiros. momentos antes de morrer.

 

Nossos colegas jornalistas, salvo raras excessões, na efervescência do fato, colocavam o velho jargão jornalístico “segundo apurações”. Falou-se de assalto em loja, de tiros na igreja, de briga por ponto e venda de drogas, entre dezenas de outros erros. Mas o espetáculo estava ali, na internet, nas redes sociais e no WhatsApp. Não se falava em outra coisa na cidade!

 

A reflexão que fica é: onde estava a mídia e todo esse espetáculo nos outros homicídios que ocorreram em São João del-Rei nos últimos meses? Só em setembro, segundo a PM, foram 20 que vieram a óbito. Por que essa mídia não questiona a PM o motivo de não haver policiamento no centro da cidade (foram quadras longas do início da briga entre os dois cidadãos até a fatídica morte na Av. Presidente Tancredo Neves)? Por que o assassinato de um menor - também à tiros - só foi notícia no Jornal das 10 da segunda-feira como um fato policial qualquer? Por que essa mídia não mostra de forma espetaculosa os problemas que a cidade enfrenta? Por que a mídia de São João del-Rei não questiona nossos governantes?

 

Porque seu propósito é outro, converter a tragédia de hoje em um grande espetáculo midiático com o objetivo de garantir audiência cativa, marcar presença, dizer que é pop. É o que se chama, em Teoria da Comunicação, de “espetacularização” da notícia, ou seja, a sua conversão em um agente não do bom jornalismo, mas do entretenimento e do cinismo, porque dá a falsa impressão de que o compromisso primeiro desta mídia é com o público, quando o é de fato, acima de tudo, com seus patrocinadores.

 

Hoje vivenciamos um triste Big Brother. Sensacionalismo, em uma palavra, como nos tempos do programa Aqui Agora, extinto em 1997. Mais brando, talvez, mas de todo modo espetacularizada.

 

Por Adriano Vianini

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