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Mês da Diversidade: Única servidora municipal trans destaca que pessoas LGBTQIA+ querem mais respeito e oportunidades de trabalho

Sanjoanense e mulher trans, Josy Hemilton é servidora municipal há quase 21 anos e sente falta de mulheres trans e travestis em cargos públicos.

24/06/2021 às 14h19 Atualizada em 24/06/2021 às 17h00
Por: Thais Marques
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Servidora municipal há quase 21 anos, Josy Hemilton atualmente é superintendente do Teatro Municipal de São João del-Rei, pela secretaria de Cultura, e possui passagens por diversos setores da Prefeitura. Foto: Franklin Félix
Servidora municipal há quase 21 anos, Josy Hemilton atualmente é superintendente do Teatro Municipal de São João del-Rei, pela secretaria de Cultura, e possui passagens por diversos setores da Prefeitura. Foto: Franklin Félix

Mais do que respeito, pessoas LGBTQIA+ necessitam de oportunidades de trabalho. É o que destaca a sanjoanense Josy Hemilton, de 34 anos, solteira e servidora municipal há 21 anos, sendo a única mulher trans a compor o quadro de funcionários da Prefeitura de São João del-Rei. 

A servidora contou à reportagem do Mais Vertentes que iniciou sua atuação na Prefeitura como Menor Aprendiz no ano de 2000, por meio de um processo seletivo. Desde então, Josy relata que já atuou na Câmara Municipal, Secretaria de Assistência Social, sendo coordenadora dos Direitos Humanos e, atualmente, trabalha na Secretaria de Cultura como superintendente do Teatro Municipal de São João del-Rei. 

“As minhas atribuições também são com a manutenção da Estação Chagas Dória, parada de trem localizada no bairro Matosinhos, assim como a gestão do espaço do Coreto Municipal, localizado no Centro”, diz Josy.

Transfobia

Questionada sobre já ter sofrido algum tipo de constrangimento ou ter sido vítima de transfobia dentro da Prefeitura, Josy afirma que “sempre teve uma liberdade muito grande, tanto nas gestões do prefeito Nivaldo quanto em outras que já passou”.

“Pelo menos na minha cara não. Não vou falar que às vezes por trás pode ter algum tipo de comentário que a gente não vê, mas pelo menos, presencialmente, eu nunca passei por isso. Pode ter uma 'implicanciazinha’ mas é questão de ego no ambiente de trabalho”.

Josy comenta que entendeu a sua sexualidade aos 18 anos, que está fazendo o tratamento hormonal para sua transição há cerca de 15 anos e relata que também sofreu bullying durante sua adolescência. “Depois que você se assume, se mostra e se impõe, você se sente muito bem resolvida”, diz.

Em relação à sofrer transfobia dentro da cidade, Josy possui como postura “impor o respeito”. “Respeito a gente não pede, a gente impõe. Eu sempre impus muito isso na minha vida.”

“Para eu estar aqui, tive que correr muito atrás e continuo correndo, eu ainda não cheguei lá, mas eu sei que estou no caminho. Então precisamos mostrar que viemos para fazer a diferença e tampar a boca de muita gente, pois o preconceito não irá acabar. A crítica sempre iremos escutar, então eu sempre falo que, 'o não eu já tenho e, portanto, corro atrás do sim'”.

Josy relata já ter ouvido falas preconceituosas em relação ao seu gênero e sua sexualidade, como por exemplo “não precisar ser tão afeminado”. “O homossexual heteronormativo é muito mais aceito na sociedade, porque a sociedade tem essa ‘mania de falar’ que você pode ser gay, mas não seja afeminado. A sociedade não tem que te aceitar, você precisa de se aceitar. Se aceitando, a sociedade é obrigada a te aceitar”.

Importante ressaltar que a LGBTfobia é tipificada como crime no Brasil desde o ano de 2019, com pena entre 1 a 3 anos, mais multa, e pode subir de 2 a 5 anos se caso seja propagado ato LGBTfóbico nas redes sociais, sendo aplicada dentro da Lei nº 7.716/89 que também criminaliza o racismo.

Mercado de trabalho

Em relação aos estereótipos negativos em relação às ocupações no mercado de trabalho de pessoas trans, a servidora comenta que gostaria de ver mais pessoas LGBTQIA+ “assumindo cadeiras”, citando eleição de Duda Salabert (PDT), vereadora em Belo Horizonte, e outras parlamentares como exemplo. “São coisas que antigamente jamais seriam aceitas”.

Sobre a dificuldade de inserção no mercado de trabalho, Josy vê como uma boa opção para as pessoas LGBTQIA+ da região o recém divulgado Concurso Público da Prefeitura de São João del-Rei, e estimula que estas pessoas “corram atrás” de oportunidades.

“Por isso que eu falo que precisamos correr atrás, pois para hoje eu poder usar meu nome social, fazer as plásticas que eu faço, usar cabelo grande e ter todos estes direitos, quantas morreram lutando por isso? Então tenho que fazer valer meus direitos e peço muito que as trans e as travestis que corram mais atrás e se unam mais”.

De acordo com o 1º Mapeamento de Pessoas Trans da Cidade de São Paulo, divulgado em janeiro deste ano, a maioria da população trans é composta por mulheres jovens, pretas e pardas, e, das 1.788 pessoas trans e travestis ouvidas pelo estudo, 59% exerciam uma função remunerada, a maioria dentro do trabalho considerado “informal”.  

Uso do nome social

Josy durante uma reunião ordinária da Câmara Municipal em 2016.
Foto: Reprodução/Redes Sociais

Sobre o Decreto N° 3.902/09, que obriga o reconhecimento, respeito e uso do nome social de travestis e transexuais em órgãos da Administração Pública e privada do município, Josy comentou um episódio onde houve uma publicação nas redes sociais por parte de um servidor municipal, onde anunciava o cargo que a servidora assumiria nesta gestão, utilizando seu nome publicado em portaria da Prefeitura, e não o seu social (que é um direito).

“Sobre essa pessoa em questão, nós não podemos alegar que é uma pessoa desprovida de cultura, de informação ou de qualquer tipo de acessibilidade a conteúdo, não que não tenha, mas é aquela pessoa que se interessa em saber. Mas ‘todos’ na prefeitura sempre me chamaram de Josy, pois já me conheceram como Josy, inclusive pelo prefeito Nivaldo, que sempre me respeitou e me deu uma liberdade muito grande”.

Em relação ao impasse que a servidora sofreu no ano passado com a secretária de Assistência Social, Aline Gonçalves, onde na ocasião a servidora relatou assédio por parte da secretária, Josy disse que o problema já foi solucionado e afirmou que por diversas vezes Aline a defendeu dentro da secretaria. “Eu já vi diversas vezes ela cortando algum funcionário que se referia a mim pelo meu nome de batismo falando ‘é a Josy’.”

Religiosidade

Josy afirma ser cristã católica e estar sentindo falta das manifestações religiosas na cidade, como as procissões, que foram interrompidas devido à pandemia da Covid-19, e diz estar sempre acompanhando as missas de forma virtual. “Para mim, a fé é tudo. O dia que eu não tiver mais fé, eu posso morrer, porque a gente vive com fé. A fé de que um dia iremos nos casar, melhorar, ser alguém na vida, ter uma casa, eu vivo pela fé.”

Além disso, a servidora teceu uma crítica que considera construtiva à Igreja Católica em relação a inserção e acolhimento de pessoas LGBTQIA+ dentro da entidade religiosa, pois percebe que há poucas travestis e transexuais participando de missas e procissões, por exemplo.

“Eu acho que as Igrejas deveriam ter um tipo de política de atração para poder levar estas pessoas (LGBTQIA+) para a igreja, pois já perdi um amigo gay que se sentia e era muito rejeitado, e muitas das vezes ele procurou lugares como apoio e não encontrou. Por isso, acho que a igreja deveria ter esse trabalho voltado em acolher mais essas pessoas, pois a Bíblia prega o livre arbítrio e o amor ao próximo, seja você gay ou o que for. Se você estiver em um lugar onde você se sente mais aturado do que querido, você vai ficar mal. Então nós temos que estar em um lugar onde nos sentimos abraçados para querer voltar. “

Prefeitura não incentiva atividades de conscientização sobre a discriminação e violência contra a população LGBTQIA+ 

Conforme noticiado pelo Mais Vertentes, em São João del-Rei, há 11 anos, é celebrado o Dia Municipal contra a Homofobia, instituído pela Lei Municipal n° 4.442/2010. De acordo com a Lei, a Prefeitura deveria executar atividades de conscientização sobre a discriminação e violência contra os LGBTQIA+ na cidade. Contudo, a atual Gestão Municipal invisibiliza e protela em executar atividades de conscientização sobre a discriminação e violência contra a população LGBTQIA+ na cidade.

Infelizmente, o Brasil se mantém na liderança do ranking de países que mais matam pessoas trans no mundo. De acordo com os dados da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (ANTRA), em 2020, foram 175 travestis e mulheres transexuais assassinadas. O crescimento do índice é de 41% em relação ao ano anterior, quando foram registrados 124 homicídios.

"As travestis e mulheres trans enfrentam violências por ousarem reivindicar seu lugar de mulher", afirma a secretária de articulação política da Antra, Bruna Benevides. "É uma campanha de ódio que chamam de combate à ideologia de gênero."

 

Com informações: ANTRA*

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