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Revista Mais Vertentes Benzimento

Cura e devoção

o ato de benzer vem de bem dizer

28/08/2019 11h11
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Por: Adriano Vianini
Cura e devoção

Tradição, cultura e muita fé. A arte da cura que resiste por séculos na sociedade se mostra viva dentro dos corações dos devotos

Por Nicole Duarte

 

Fé, devoção e amor, são as palavras que mais definem essas pessoas que curam e cuidam com tanto afinco das comunidades do interior do Brasil ao longo de séculos: as benzedeiras.

 

Mulheres e homens que realizam suas preces em busca de ajuda superior para resolver os mais diversos tipos de enfermidades e problemas. São terapeutas populares que ao longo de gerações mantém sua fé intacta e desempenham grande feito na sociedade em si.

 

Na região do Campo das Vertentes, encontramos a fé como símbolo usual e frequente. A fé que se esbarra de diversas formas no catolicismo, nos terreiros de umbanda, no espiritismo, nos evangélicos, entre tantas outras formas de religião é vista e ainda muita praticada nas pequenas cidades mineiras dessa região. E é justamente dessa fé, que nossas curandeiras naturais são feitas. Quem vive por aqui com certeza já ouviu muito falar delas e de seus "milagres" curativos.

 

São João del-Rei é uma cidade repleta de histórias, tradições e devoção por parte da sua comunidade. Em seus cantos mais afastados é possível encontrar personagens incríveis que contribuem de maneira especial para a construção dessa tradição de benzeduras. Elas trabalham em prol do equilíbrio físico e espiritual de quem as recorre em busca de ajuda, podendo executar a benzedura presencialmente ou à distância. Rezam seus "males" e pedem através de sua fé uma resolução para aquele problema.

São usadas mais de 16 tipos de ervas na prática das benzeduras

A mestranda de história da Universidade Federal de São João del-Rei, Tayane Oliveira, aproveitou suas raízes já fincadas na tradição das benzedeiras para fazer um estudo mais aprofundado sobre elas na cidade. "Minha pesquisa desperta para um grande interesse pessoal, pois minha família materna foi formada por benzedeiras. A minha infância foi marcada por visitas de pessoas desconhecidas que levavam seus filhos para serem benzidos pela minha avó. As memórias que guardo sobre esses fatos me fazem pensar sobre esse rico universo religioso", explica a universitária.

 

Segundo a pesquisadora, a benzedura é uma prática transmitida por meio dos gestos e da oralidade, e carrega consigo um universo de influências religiosas, culturais e populares que moldam a identidade da benzedeira. Além das orações que são repassadas, as benzedeiras carregam consigo devoções, religiosidades envoltas a um catolicismo popular que se manifesta a partir das vivências de mundo dessas personagens.

 

Seu projeto de pesquisa se baseia em trabalhar as histórias e tradições das benzedeiras da cidade de São João del-Rei. "Iniciei minhas pesquisas a respeito da prática de benzedura. Pude trabalhar com fontes audiovisuais ao entrar em contato com algumas benzedeiras e benzedores da cidade, resultando no desenvolvimento do documentário em fase de finalização Reza Antiga, Cura Certa", comenta Tayane. Seu documentário está previsto para ser finalizado e divulgado no final de 2019, em parceria com o Laboratório de Imagem e Som - LIS. Por conta de seu trabalho, Tayane conversou com personagens da tradição que contaram suas histórias de vida, lembranças e práticas. O projeto tem como proposta apresentar o universo de fé e cura da benzedura a partir das suas vivências por meio do laurear das memórias dos benzedores.

Abertura do Documentário da mestranda Tayane Oliveira que aborda as raízes das benzedeiras sanjoanenses.
 

Tayane ainda pretende aprofundar seu estudo sobre como a tradição das benzedeiras se mantém viva dentro de uma cidade tão fortemente marcada pela religiosidade. "São João del-Rei é uma cidade marcada pela forte tradição religiosa que nos fornece um substrato para pensar como a benzedura se configura nesse contexto católico tradicional. A prática fornece uma janela para se a história da religiosidade em Minas Gerais, as devoções, os trânsitos religioso, os males físicos e espirituais, as práticas curativas e principalmente, as formas de manutenção dessa tradição", explica a pesquisadora.

 

Grande parte das benzedeiras de São João del-Rei, encontram-se em comunidades mais afastadas, muitas em zonas rurais, e com um acesso mais restrito como Várzea do Faria, Araçá, Tejuco e Gameleira, entre outros. Para encontrá-las é preciso contar com a sorte e o "boca a boca" da população local, que auxilia na hora de explicar como chegar até os curandeiros, pois a maioria deles são pessoas idosas e não possuem telefones em suas residências.

 

A benzedura é um costume muito antigo no Brasil e encontrado até mesmo em nosso dicionário. Benzer vem do latim, bene dicere, que em português significa "bem dizer". Em outras palavras benzer é dizer bem de alguém ou fazer o bem. A tradição é uma herança portuguesa, onde as mulheres costumavam ser grandes benzedeiras. No Brasil, o costume foi sincretizado com outros elementos religiosos com influências indígenas e africanas juntamente com as herança portuguesa. Normalmente passadas de geração em geração, por avós, tias e mães, o ritual pode ter reduzido nas grandes cidades, mas a herança ainda é forte e viva no interior. E engana-se quem acha que apenas mulheres possuem o dom. Homens são cada vez mais frequentes na arte da cura, recebendo os ensinamentos de seus parentes mais próximos.

 

O especialista na arte do benzimento e benzedor Bruno Munhoz explica sobre a cultura por trás das benzeduras. "É uma tradição multicultural que não possui uma única origem certa. Ela surge muito forte como uma conexão com Deus, quando a igreja não era mais tão acessível ao povo. De uma maneira geral, 90% dos benzedores são católicos", conta Bruno ao dizer que o despertar do que os benzedores chamam de "dom de benzer". "O benzedor sente esse chamado em conexão com Deus, uma conexão tão forte que o torna capaz de ajudar outra pessoa. A partir daí, começam a surgir as linhagens de benzedores, ou seja, a forma como o benzedor transmite esse conhecimento, que chamamos de dom", explica.

 

Segundo o benzedor, as linhagens acontecem de maneira não homogênea, sendo diferentes em cada família. Em alguns casos é possível e mais comum encontrar as linhagens femininas, onde somente as mulheres da família podem receber o dom e ainda assim, existindo certas ressalvas, onde só a filha mais velha teria esse direito, ou apenas a filha mais nova, outras pulando uma geração em que a avó transmite para a neta e assim por adiante. Em outros casos existem as linhagens masculinas, que limita o dom apenas entre os homens, passando pelas mesmas regras das linhagens femininas. E o caso mais raro, mas ainda encontrado, é quando o benzedor escolhe uma terceira pessoa, fora de sua linhagem sanguínea, que seja digno dos aprendizados para receber o dom de benzer.

 
 
Brunho Munhoz, 39, é benzedor e especialista no assunto. Ministra cursos sobre o tema e ajuda na formação de novos benzedores e curandeiros em Minas Gerais.

 

Atualmente, a Organização Mundial de Saúde passou a considerar o benzimento/benzedura como uma terapia holística, assim como já admite a questão espiritual como meio de cura. O costume está inserido no SUS a partir de duas políticas nacionais brasileiras: a política de práticas integrativas e a política de fitoterápicos e plantas medicinais, ambas fixadas há quase 20 anos no país. A própria OMS vem se dedicando aos estudos que envolvem a fé e a espiritualidade como meio de cura.

 

 

Apesar de ainda muito comuns, a dificuldade de encontrar benzedores e benzedeiras na região ainda é um problema. Diante disto, algumas pessoas procuram alternativas semelhantes para curar os males do corpo e da alma. "Muitas pessoas vão aos terreiros de umbanda ou candomblé, que utilizam dos encantados, justamente por não encontrar com facilidade os benzedores em sua cidade ou ao seu alcance. Então é mais fácil ir ao um terreiro e receber o benzimento de um preto velho ou de um caboclo", explica o benzedor Bruno Munhoz. Outro fator muito importante que tem preocupado os especialistas e também os benzedores é o fato de não estar surgindo novos curandeiros natos. "Acontece que, por senhores e senhoras de tradições familiares de benzedores estarem partindo deste plano sem deixar um herdeiro deste dom, eles acabam se tornando raros e diminuindo cada vez mais o acesso até eles" comenta Bruno.

 

Por outro lado, comunidades rurais tendem a ter um número maior de curandeiros, sendo muito valorizados e respeitados por suas práticas e conselhos dados e por serem possuidores de um conhecimento incrível.

 

Todo esse aprendizado é lembrado pelas benzedeiras como uma boa parte da infância e juventude, onde aprendiam com maior facilidade a prática no dia a dia. Algumas contam que receberam um chamado divino, que as encaminharam na jornada de ajudar o próximo com o dom de benzer. De acordo com elas, por ser um dom dado por Deus, as benzeduras não podem ser cobradas visando nenhum tipo de benefício próprio. Tudo é feito de maneira gratuita e com muito amor.

 

O benzedor Bruno comentou sobre o termo "vá se benzer" ter se tornado parte da cultura popular da língua brasileira. "Creio por mim que as benzeduras nunca irão sumir de vez, pois já se tornaram até mesmo um artigo proverbial entre nossa cultura, afinal, sempre ouvimos pessoas ao nosso redor comentar o famoso 'vá se benzer', para quando algo está dando errado na vida. É algo enraizado na nossa cultura e em nossas vidas através de outras gerações," explica.

 

Em relação à revitalização da prática, algumas instituições brasileiras vêm tentando manter a tradição viva de alguma forma. A Universidade Federal de Minas Gerais realizou, recentemente, um encontro de benzedeiras e raizeiras em Belo Horizonte. Seguindo os mesmos passos, no Rio de Janeiro também ocorreu um encontro nesse parâmetros. No Paraná, em 2012, foi instaurada uma lei que passou a reconhecer as benzedeiras, rezadeiras, curandeiras e raízeras como agentes de saúde pública. A cidade de São João do Triunfo legalizou o acesso e manipulação de algumas ervas medicinais pelas mãos das benzedeiras, facilitando assim o atendimento delas à comunidade. Em Rebouças, também no Paraná, a mesma lei já vale desde 2009. Foram cadastradas na ONG Masa (Movimento Aprendizes da Sabedoria) nas duas cidades um total de 294 benzedeiras.

 

Se analisarmos bem, o que o benzimento causa, em termos de benefícios à saúde, ele pode ser considerado uma terapia. Revigorando as conexões da alma com o divino e causando bem estar físico através da fé de quem aplica a benção. Em um sentido mais amplo, o benzimento pode ser considerado uma terapia holística por cuidar do corpo inteiro, um dos fundamentos do termo. O benzedor Bruno Munhoz deu um bom exemplo de como a benzedura se mistura com as terapias holísticas atualmente utilizadas. "Por exemplo, o benzimento não precisa ser presencial, ele pode ser dado à distância. Uma terapia hoje em dia, muito conhecida é o reiki, e um de seus fundamentos prevê o envio de energias à distância. Algo que o benzimento já fazia há muito anos atrás. Acredito que seja apenas um nome, um rótulo moderno. A essência continua a mesma,"explicou.

 
 
 
Simplicidade e muita fé é o que move esses terapeutas naturais.

A benzedeira Eunice Lemos vem de uma antiga família de benzedeiras na cidade de São João del-Rei, e ao longo dos seus 75 anos, segue ajudando e cuidando a quem lhe recorre. Segundo ela, para a reza dar certo, a pessoa precisa ir os três dias seguidos de benzimento na casa dela: segunda, quarta e sexta. Assim ela tem certeza que tudo sairá conforme pensado.

 

Com vocação desde muito novinha, Dona Nice conta que aos cinco anos já previa algumas situações antes mesmo de acontecer. “Eu fui uma vez visitar uma conhecida da minha mãe, eu ainda era menina, e lá na casa da mulher tinha uma criança pequena, uma bebêzinha mesmo, de no máximo dois meses que estava bem doentinha. Eu achei que tinha alguma estranha, senti umas coisas dentro de mim, que diziam que aquela bebê iria falecer naquele dia mesmo, até umas 17 horas, alguém iria avisar. Fui embora com a minha mãe e fiquei com aquilo na cabeça. Até contei pra ela, mas ela preferiu não acreditar. Quando deu o horário que eu tinha dito, passaram lá em casa avisando que a menininha tinha falecido. Eu sabia já, tinha sido avisada”, conta. Para a benzedeira, situações assim eram comuns e ela seguiu sendo avisada em outras momentos. “Muitas coisas que acontecem ou que aconteceram, eu sou avisada. Quando alguém vai morrer principalmente. Eu sinto que vai acontecer”, disse.

 

Católica fiel, a casa da Dona Nice é repleta de santos e orações por todo lado e a benzedeira se orgulha disso. “Tenho muita devoção em Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora do Carmo. Elas estão sempre presentes nos meus benzimentos”. Além da fé em seus santos, a rezadeira utiliza de ervas para realizar seus benzimentos. “Faço tudo, aguamento, vento virado, cobreiro, quebrante.. de tudo um pouco. Eu uso minhas ervas, faço minhas orações, tenho meu terço que tá sempre comigo nesses momentos. Uso alecrim e arruda principalmente. Uso durante o benzimento e passo banho também se precisar”, conta Dona Nice.

A devoção aos santos católicos que auxiliam no benzimento dos necessitados.
 

Se engana quem acha que Dona Nice sempre foi conhecida pelos seus feitos, durante muito tempo escondeu que benzia as pessoas por medo do preconceito alheio e de alguém fazer mal para seus filhos. “Eu não contava pros outros que faço benzimento não. Eu tinha medo de quem perseguia pessoas como eu. Que acham que é coisa do diabo. E eu sou católica! Tenho esse tanto de santo aqui em casa atoa não!” Hoje em dia, ela já não se importa e está sempre disposta a ajudar quem precisa, seja de perto ou de longe, realiza seus benzimentos com muita fé e a felicidade de ajudar os outros fica estampada quando conta seus casos. “Eu confesso, vou na igreja e conto pro padre que eu benzo. O padre me disse que não é pecado, porque to fazendo o bem. Então pra mim tá ótimo! Eu benzo de longe e de perto. Qualquer forma que eu puder ajudar, to ajudando. Quando faço de longe, converso com a pessoa, aviso pra ela ficar quieta uns 10 minutos, em silêncio. Falo pra fazer o nome do pai, e enquanto isso eu rezo daqui pra pessoa”, explica a benzedeira com orgulho.

 

Segundo Dona Nice é muito comum encontrar gente desesperada mas que no fundo, não acredita que aquilo irá dar certo. A fé no que faz é uma das coisas mais importantes que deve existir, e de acordo com ela, se a pessoa não acredita que irá funcionar, realmente o benzimento não ajuda em nada. A benzedeira explica que o dom dado por Deus deve ser usado apenas para fazer o bem e nada mais. Não se pode cobrar, não se pode aceitar presentes, nem nada em troca. “Tem gente que me traz presente até. Porque dá certo e as pessoas querem agradecer. Mas eu não aceito não! Deus me deu o dom para ajudar o próximo e não pra ganhar presente de ninguém. Não aceito mesmo. Eu ajudo quem precisa, minha vocação é essa. Quem quiser acreditar, acredite, quem não acreditar eu não me importo também não”.

 

Com uma grande família, sendo 38 netos e bisnetos, dos quais querida senhora comenta com muito orgulho, Dona Nice espera que uma de suas netas carregue a vocação para fazer o bem como ela mesma faz. “Espero que uma das minhas netas dê continuidade ao que faço. Peço à Deus que eu vá até uns 100 anos, mas preciso passar pra uma delas continuar. Tenho 38 entre netos e bisnetos, acredito que um deles vai sim seguir o mesmo caminho e ter esse mesmo dom que eu tenho.”

 

E em meio a tanta devoção, carinho e fé, é reconfortante encontrar em uma tradição e cultura tão antiga o afeto que essas senhoras e esses senhores espalham ao realizar o benzimento. Designar um espaço do seu tempo, dentro de tantas outras atividades corriqueiras, apenas para dar um pouco de paz de espírito para quem procura, é o verdadeiro significado de amor.

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