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Saúde Mental acessível o ano todo: saiba como procurar ajuda em São João del-Rei

A pandemia provocou o aumento dos sintomas psíquicos, transtornos mentais e até mortes, especialmente entre os mais jovens; Desta forma houve o aumento na procura do atendimento especializado em saúde mental na região. Conheça como funciona o atendimento pelo SUS e em projetos sociais

06/09/2021 às 16h31 Atualizada em 08/09/2021 às 10h56
Por: Thais Marques
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A pandemia agravou os sintomas psiquiátricos e transtornos mentais, aumentando também a procura pelo atendimento especializado em saúde mental. Foto: Natali_Mis/iStock
A pandemia agravou os sintomas psiquiátricos e transtornos mentais, aumentando também a procura pelo atendimento especializado em saúde mental. Foto: Natali_Mis/iStock

ATUALIZAÇÃO: 10H55

O significativo aumento de sintomas psíquicos e de transtornos mentais durante a pandemia da Covid-19 possui diversos fatores, seja pelo medo do contágio, condição financeira, nossa relação com a sociedade diante o confinamento e inseguranças causadas pela crise sanitária e, por que não dizer, solidão. O acesso ao atendimento e apoio especializado na saúde mental pelo SUS em São João del-Rei é realizado por uma rede de atendimentos ligados ao Núcleo de Saúde Mental, da Secretaria Municipal de Saúde. Outras instituições, como a ONG Nac Tales, que oferecem o atendimento psicológico de forma acessível financeiramente, e as Universidades da cidade também colaboram com a comunidade, disponibilizando profissionais e atendimentos especializados na saúde mental.

De acordo com o Ministério da Saúde, o aumento dos sintomas psíquicos e dos transtornos mentais durante a pandemia pode ocorrer por diversas causas. Dentre elas está a ação direta do vírus da Covid-19 no sistema nervoso central, as experiências traumáticas associadas à infeção ou à morte de familiares e pessoas próximas, o estresse induzido pela mudança na rotina devido às medidas de distanciamento social ou pelas consequências econômicas, na rotina de trabalho ou nas relações afetivas e, por fim, a interrupção de tratamento por dificuldades de acesso.

Esses cenários não são independentes. Ou seja, uma pessoa pode ter sido exposta a várias destas situações ao mesmo tempo, o que eleva o risco para desenvolver ou para agravar transtornos mentais já existentes. Ainda de acordo com o Ministério da Saúde, o distanciamento social alterou os padrões de comportamento da sociedade, com o fechamento de escolas, a mudança dos métodos e da logística de trabalho e de diversão, minando o contato próximo entre as pessoas, algo tão importante para a saúde mental.

O convívio prolongado dentro de casa aumentou o risco de desajustes na dinâmica familiar. Somam-se a isso as reduções de renda e o desemprego, que pioram ainda mais a tensão sobre as famílias. E, ainda, as mortes de entes queridos em um curto espaço de tempo, juntamente à dificuldade em realizar os rituais de despedida, dificultando a experiência de luto e impedindo a adequada ressignificação das perdas, aumentando o estresse.

Além disso, pessoas que já conviviam com transtornos mentais, como a depressão, estão mais propensas à prática do suicídio. Mesmo com os dados apontando que as taxas estão “estáveis” em relação ao número de suicídios, há uma dificuldade de saber a real dimensão do que leva a pessoa a cometer o suicídio, já que a maioria dos países de baixa-média renda não possuem um sistema de registo desses dados de qualidade e tampouco uma coleta de dados em tempo real.

Taxas de Suicídio

Infelizmente, quase que mensalmente, os noticiários revelam - mesmo que de forma indireta - fatalidades cometidas por jovens que morreram abruptamente ou cometeram suicídio em São João del-Rei e região. Porém, com a ausência de informações e dados disponíveis sobre suicídios no município da região, o Mais Vertentes recorreu ao Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2021, estudo realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, onde aponta que o número de suicídios no Brasil em 2020 foi de 12.895, e 0,4% a mais que em 2019, quando foram registrados 12.745 casos. São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul foram os Estados com maiores índices de suicídio.

Segundo o Anuário, em Minas Gerais, mesmo estando entre os três estados com maior índice de suicídio, houve 1.687 registros no ano de 2019, e 1.656 em 2020, apontando uma queda de -2,4% nos casos. 

De acordo com Inquérito Nacional de Saúde LGBTQIA+, realizado em parceria de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), relatos de depressão na comunidade chegaram a dobrar em relação à população que não faz parte do grupo, enquanto o percentual de pessoas gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais que se consideram “sempre sozinhos” chegou a 18,9% – ou seja, praticamente, um quinto do total. 

Outros marcadores que indicam o avanço da marginalização e da piora na saúde dessa população são as taxas de consumo de álcool e cigarro, que avançaram, respectivamente, 17% e 6% durante a pandemia. Em apuração, a nossa reportagem obteve a informação de que houve pelo menos seis suicídios na cidade de São João del-Rei entre 2020 e 2021, onde boa parte das vítimas eram jovens LGBTQIA+. Procurada pela nossa reportagem sobre quantos registros de suicídio foram realizados durante a pandemia na região, a Polícia Militar, através do Setor de Comunicação do 38º BPM, até o fechamento desta edição não retornou às nossas solicitações.

Segundo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), entre 700 e 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. O estudo divulgado em junho de 2021 aponta que o suicídio entre a faixa etária dos 15 aos 29 anos foi a quarta causa de morte mais frequente, após acidentes de trânsito, tuberculose e violência. 

Ainda de acordo com a OMS, 79% dos casos acontecem em países de baixa e média renda; 12,6 a cada 100 mil homens entram nos índices, sendo a maioria dos casos é registrado em países de alta renda. Em relação às mulheres, 7,1 a cada 100 mil cometem suicídio e a maioria de países de baixa-média renda.

Setembro Amarelo

Imagem: Agência Brasil / EBC

Cerca de 11 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no Brasil de acordo com o primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio, divulgado pelo Ministério da Saúde, entre 2011 e 2016. Segundo o MS, 62.904 pessoas tiraram suas próprias vidas no país entre os anos e 79% delas eram homens e 21% mulheres. 

A taxa de mortalidade por suicídio entre os homens foi quatro vezes maior que a das mulheres, entre 2011 e 2015. São 8,7 suicídios de homens e 2,4 de mulheres por 100 mil habitantes.

É nesse cenário que o Setembro Amarelo ganha cada vez mais força. A campanha mobiliza a sociedade para conscientização sobre o tema, falando sobre como identificar sinais da ideação suicida, como ajudar ou buscar ajuda.

 

Atendimento Especializado em Saúde Mental

De acordo com um relatório divulgado pela Prefeitura de São João del-Rei em 2019, o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS del-Rei) atende pessoas cadastradas com transtornos mentais graves a severos em situação de crise psiquiátrica. Os transtornos mais comuns atendidos no CAPS de SJDR são a esquizofrenia, depressões graves e transtorno bipolar. No CAPS AD (Centro de Atenção Psicossociais Álcool e Outras Drogas), são atendidos os usuários que “fazem uso abusivo do álcool e outros tipos de drogas”, sendo referência entre os municípios da região.

Sede do Núcleo de Saúde Mental de São João del-Rei.
Foto: Thaís Marques/Mais Vertentes

Na rede municipal de Saúde, o Núcleo de Saúde Mental (NMS), com sede na rua Carvalho Resende, nº 123, no Centro da cidade, atua com o atendimento primário voltado à psicoterapia. O direcionamento ao atendimento no Núcleo é feito pelo SUS, principalmente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) que não disponibilizam atendimento psicológico. Atualmente, apenas as Unidades dos bairros Bonfim, Guarda Mor, São Geraldo, Senhor dos Montes e Tijuco possuem esse atendimento, sendo encaminhados ao Núcleo os pacientes das Estratégias de Saúde da Família (ESF), que não disponibilizam psicoterapia em suas área de cobertura.

A coordenadora e psicóloga, Maria Alicia Coelho, em entrevista ao Mais Vertentes, explica que as ESF devem trabalhar com a medicina preventiva em todo o país. “Essas estratégias devem promover ações para evitar que as pessoas cheguem ao estado de precisar do assistencialismo voltado à medicina curativa. Todos os nossos pacientes vêm da ESF. Toda a equipe, médicos, enfermeiros e agentes comunitários de saúde realizam um contato com estes pacientes que serão atendidos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Quando eles não dão conta, ou é o caso de um atendimento mais especializado, esta equipe encaminha a nós”.

No Núcleo são ofertados atendimentos em psicologia infantil e adulta, psiquiatria infanto juvenil e também adulta e neurologia, sendo todos os atendimentos realizados pelo SUS. “Nós fazemos um relatório enquanto à referência, analisamos e agendamos o atendimento. Nós não trabalhamos com urgência e emergência, sendo para esses direcionados para o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e para a UPA. Trabalhamos por meio do agendamento, com o tratamento contínuo. Após o tratamento e a constatação de que o paciente está bem, ele é redirecionado à ESF para o acompanhamento e desta forma conseguimos fazer o nosso atendimento ser mais abrangente e para mais pessoas”, diz a psicóloga.

Segundo a psicóloga, que atua na direção do Núcleo desde 2017, cerca de 1.000 pessoas de São João del-Rei e região são atendidas por mês no NSM. Durante a pandemia, a psicóloga disse que houve aumento na procura pelo atendimento de casos de ansiedade, síndrome do pânico e depressão. “A pandemia tirou várias formas que tínhamos de nos distrair de nós mesmos, sendo a diversão, o lazer e a cultura. A pandemia cortou isso e colocou todo mundo voltado para si mesmo e as pessoas estavam acostumadas com esta distração. Então quando voltamos para nós e refletimos sobre nossas vidas, questionamentos o futuro, aí as pessoas começaram a entrar em processo de ansiedade muito grande. Então ficou um vazio, estamos vivendo um momento de guerra, sendo ela silenciosa e tendo destruído muitos sonhos e desejos. As pessoas ficaram sem perspectiva, e essa falta fez com que as elas entrassem nesse processo de muita ansiedade.”

De acordo com a coordenadora, o Núcleo de Saúde Mental não parou as atividades durante a pandemia, onde, a princípio, os atendimentos estavam sendo realizados de forma online. Atualmente o NSM já realiza atendimentos presenciais, de acordo com os protocolos sanitários em prevenção à Covid-19. “Além da procura ter aumentado, a população ficou mais impaciente, intolerante e agressiva. Estamos aqui para acolher e servir a população, mas teve um momento onde as pessoas não entendiam os impasses. Profissionais de saúde que foram infectados pela Covid foram afastados e as pessoas não entendiam, devido à ansiedade e o nível de estresse tão grande, que eles não aceitavam que adoecemos e também ficamos afastados. E nós aqui, tentando manter o serviço ativo e teve momentos que não demos conta.”

O Núcleo de Saúde Mental, que também funciona como Centro de Convivência para pacientes em tratamento e como trabalho de inclusão social conta com uma equipe de 12 profissionais contratados pelo município, além de professores e alunos da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e do Uniptan. São cinco psiquiatras, três psicólogos e um neurologista. 

“Nós temos colaboradores, pois não existe no plano de cargos e salários da Prefeitura para a contratação de oficineiros, por exemplo, e o Ministério Público impede essa contratação, portanto só contamos com colaboradores. Sendo estes pessoas ligadas às Universidades, pessoas da comunidade e até nossos pacientes."

Questionada sobre o atendimento à população LGBTQIA+, que depende de um atendimento especializado devido às questões sociais e psicológicas que envolvem sua sexualidade e identidade de gênero, a psicóloga disse que o Núcleo “atende de tudo”. “A porta é aberta para todo mundo, atendemos pacientes transsexuais e vários homossexuais. A gente percebe que, existencialmente, é mais difícil para eles, pois vivemos em um país machista. Mas o nosso atendimento aqui é igual para todo mundo, não fazemos diferenciação. A psicoterapia trabalha o ser humano de forma universal, não vemos a pessoa como um ‘rótulo’, trabalhamos o ser humano.”

Faixada do Núcleo Cultural Tales em São João del-Rei 
Foto: Thaís Marques/Mais Vertentes

O Núcleo Cultural Tales,  projeto inicialmente criado na periferia da cidade de São Paulo, possui filial em São João del-Rei, localizada na rua Monsenhor Silvestre de Castro, nº 1627- Fundos, no bairro Colônia do Marçal. O Nac Tales foi fundado e liderado pelo são-joanense Frei Elvécio de Jesus Carrara, com o objetivo de criar um ambiente seguro e de estímulo às práticas socioeducativas, esportivas, culturais e de assistência social ao desenvolvimento comunitário para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, assim como suas famílias.

Dentre as oficinas ofertadas no Nac Tales, por profissionais que atuam de forma voluntária, estão capoeira, balé, futsal, teatro, literatura infantil, aulas de inglês, espanhol, pintura em tecidos, artes plásticas, atividades física e esportiva, reforço escolar, musicalização infantil, alfabetização para adultos, canto coral infanto juvenil, oficinas terapêuticas, para crianças e atendimento pedagógico. Além disso, há outras oficinas que abrangem a comunidade em geral, como ginástica para pessoas na terceira idade e atendimentos na área da saúde mental.

Délcio Paulo Carrara, coordenador da filial são-joanense, disse em entrevista ao Mais Vertentes que as famílias que são atendidas há três anos pelo Núcleo pediram apoio em obter acesso à psicoterapia. “Nossa principal área de atendimento é a Colônia do Marçal e bairros adjacentes, pois sabemos da dificuldade de moradores de outros bairros em deslocarem até ao Nac Tales, devido à localização. Nosso foco são as atividades ocupacionais, gratuitas e coletivas para crianças e adolescentes mais carentes, através das oficinas culturais. Mas, como temos um espaço próprio e privilegiado em relação ao espaço, temos agregado outros serviços, que abrange também atendimentos especiais para qualquer pessoa da comunidade.”

Em relação a esses atendimentos, o Nac Tales oferece, com parcerias, atendimento com uma médica clínica geral às sextas-feiras, dois fonoaudiólogos, um grupo de sete psicólogos, três nutricionistas, um advogado e dois fisioterapeutas. “Em um valor quase que simbólico para o atendimento, de R$ 30,00. Mas nós não deixamos de atender, pois temos casos onde as pessoas precisam do atendimento e não tem esse valor. Atendemos normalmente e com a mesma qualidade de quem pode contribuir com os R$ 30,00, e no atendimento incluímos crianças, adolescentes e adultos em geral.”

Sobre o aumento da demanda no atendimento especializado em saúde mental, Délcio disse que “é de assustar”. “Quase que todo dia aparece uma pessoa buscando este atendimento, daí passamos para os psicólogos para ver a disponibilidade de agendamento. No início do ano eu mesmo estava fazendo o agendamento e repassando para a equipe, mas agora ficou mais complicado devido ao aumento da demanda. Portanto, está sendo um trabalho bem interessante e a comunidade tem acreditado no projeto, que envolve todo o serviço", relata.

O coordenador da filial também informou que o Núcleo recebe demandas da rede municipal, quando a UBS da região “não dá conta” de realizar o atendimento especializado. Para mais informações e contato para atendimento no Nac Tales, clique aqui.

Procurada por nossa reportagem, a assessoria de comunicação da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) informou que o curso de Psicologia também oferece atendimento psicoterapêutico gratuito à comunidade são-joanense, por meio do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA). Além disso, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Proae) também oferece apoio aos alunos que necessitem desse tipo de atendimento, principalmente em tempos de isolamento social decorrente da pandemia. A Universidade contribui com o atendimento especializado em saúde mental da cidade disponibilizando professores e alunos para atuar nos serviços disponibilizados pela rede municipal.

Serviços

Núcleo de Saúde Mental - Rua Carvalho Resende, nº 123, Centro. Contato: (32) 3371-4619

UBS que disponibilizam psicoterapia: Bonfim, Guarda Mor, São Geraldo, Senhor dos Montes e Tijuco.

Nac Tales - Rua Monsenhor Silvestre de Castro, nº 1627- Fundos, Colônia do Marçal. Contato: (32) 3372-5470

Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) UFSJ - Mais informações em (32) 3379-5808 e [email protected]

Centro de Valorização da Vida - 188

Com informações: OMS,  Ministério da Saúde e jornal O Tempo*

 

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