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São João del-Rei: Impasse entre Damae e novo shopping deixa no mínimo oito ruas sem água no bairro Matosinhos

Moradores de oito ruas do bairro Matosinhos reclamam falta de água após lançamento do shopping Pátio Matosinhos. Damae responsabiliza o shopping por "drenar a água da região". Proprietário do empreendimento lamenta a "perseguição" do diretor do Damae e diz que problemas pontuais estão sendo solucionados, nega responsabilidade pela falta de água no bairro e diz que o problema está em toda a cidade.

21/10/2021 às 15h00 Atualizada em 21/10/2021 às 17h21
Por: Adriano Vianini
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Shopping Pátio Matosinhos. Foto: Ilustração / Facebook
Shopping Pátio Matosinhos. Foto: Ilustração / Facebook

Moradores de ao menos oito ruas do bairro Matosinhos, em São João del-Rei, denunciam a falta de água há três meses e, segundo eles, o problema se agravou com a finalização do empreendimento shopping Pátio Matosinhos. Mesmo fazendo um abaixo assinado, o problema, segundo os moradores, só foi resolvido parcialmente. 

Até o momento, oito ruas próximas ao novo shopping estão sem distribuição de água. Os moradores alegam que desde a finalização do empreendimento estão sem água em suas residências, sendo abastecidos ocasionalmente por carros pipa do Damae. 

À nossa reportagem, uma moradora relatou que "existem famílias que possuem membros com comorbidades e que estão passando por muitas dificuldades". "A Prefeitura antes de aprovar qualquer empreendimento deveria verificar se a estrutura no entorno comporta empreendimentos deste porte", desabafa outro morador.

"Somos consumidores e pagamos por um serviço que não está sendo prestado eficientemente. Recentemente a água chegou em algumas residências, mas não tinha força nem quantidade o suficiente para abastecer as caixas d'água, especialmente do segundo andar", relata outra moradora.

Além disso, moradores gravaram um vídeo compartilhado nas redes sociais onde o depósito de água do novo shopping ficava com um grande volume de água vazando. “Enquanto isso estamos em uma situação calamitosa pelo não abastecimento de água", relatam os moradores em um abaixo assinado encaminhado ao Damae. (Confira na íntegra abaixo).

No abaixo assinado feito por moradores da rua Amaral Gurgel e Joaquim Portugal, os vizinhos ao empreendimento alegam que várias ligações e protocolos foram enviados ao Damae, mas que nenhuma providência havia sido tomada até a última segunda-feira (18). Porém, até o fechamento desta edição, nesta quinta-feira (21), o Damae informou ter conseguido resolver temporariamente o problema de abastecimento na região, porém o problema ainda está longe de acabar.

O que diz o Damae

Em entrevista ao portal Mais Vertentes, o diretor da autarquia, Jorge Hannas Salim, responsabilizou o shopping Pátio Matosinhos pela "drenagem da água nas ruas ao entorno do shopping", e relatou a ausência de poço artesiano, possíveis ligações clandestinas de água e a "falta de regularização" junto ao Damae.

"A rede de água oficial do empreendimento fica na Av. Josué de Queiroz, porém nós descobrimos uma rede ligada na rua Joaquim Portugal [fundos ao shopping] que, na segunda-feira, foi tamponada. Tivemos que escavar o cortar uma ligação que não deveria estar ali", disse Hannas. 

Segundo o diretor geral, o shopping tem três reservatórios de seis mil litros bem abaixo do nível da rua. "São 18 mil litros e um reservatório superior com capacidade de 100 mil litros. A água toda é drenada para a parte debaixo do bote”, explica Hannas.

"Você tem um reservatório embaixo. É obvio que a água vai descer e os reservatórios debaixo são interligados, e com uma válvula automática, abaixou a boia imediatamente que manda a água para o reservatório superior. E aquilo fica 24 horas drenando a água todinha da região”, disse o diretor. "Não duvido que exista ligações clandestinas, pois lá é uma antiga fábrica", ressaltou.

Segundo Jorge Hannas, na segunda-feira (18), a equipe do Damae esteve no local para tampar a ligação da rua Joaquim Portugal e estão analisando possíveis ligações clandestinas ou não. 

O diretor geral do Damae também explicou que o empreendimento assinou há meses um termo de compromisso com o Damae para a construção de um poço artesiano. Reforçou que a autarquia não recebeu nenhum projeto de engenharia do novo empreendimento Pátio Matosinhos e que a instalação está funcionando com alvará provisório da Prefeitura. "Não fizeram uma solicitação para ligar o esgoto. O esgoto não tem problema de ligar, mas a água sim. Lá possui uma pena de água, apenas". “E o pior estar por vir! Não sei como eles farão após a abertura do posto de gasolina com lava-jato e aquelas dezenas de lojas e academias. Não terão água”, alertou Jorge Hannas.

"Eles conseguiram funcionar com um alvará provisório sem a gente saber”, disse Hannas. "E se não der entrada na prefeitura pedindo o Habite-se, para nós aqui é clandestino sim porque depois da entrada lá eles mandam as informações para fazermos o cadastro correto". "Nós não temos cadastro do shopping aqui [no Damae] e não existe o cadastro do pessoal [do shopping]”, explica Hannas. 

O que diz o shopping

Procurado por nossa reportagem, um dos proprietários do empreendimento shopping Pátio Matosinhos, Juca Lombardi, disse lamentar as falas do diretor do Damae que, segundo ele, são falaciosas. Também disse que não procede a denúncia do shopping estar drenando a água da região.

“Somos uma empresa familiar séria com mais de 80 anos de história na cidade, no bairro de Matosinhos, e prezamos por todos as nossas atividades”, reforça Juca. 

Juca confirmou ter havido um problema na caixa de água nos fundos ao shopping [onde foi divulgado um vídeo do reservatório de água vazando por morador], porém segundo ele, o problema já foi solucionado. “Coisas isoladas que vão sendo organizadas após uma obra deste porte”, explica ele.

Sobre o fato de não haver um poço artesiano no empreendimento, Juca explicou que "furamos mais de 130 metros e não encontramos água o suficiente", destacou.

O proprietário também disse haver uma caixa de 100 mil litros e que, por normas de segurança, 70% da água deve ser reservada para combater incêndio. "Não temos um consumo tão alto, pois hoje só funciona um supermercado que possui baixo consumo de água”, explica ele. 

Segundo o empresário, o Pátio Matosinhos teve que arcar com despesas que deveriam ter sido da prefeitura, como a captação da rede pluvial."Tivemos que arcar com as despesas e com a responsabilidade que seriam da Prefeitura. Porém, como fomos informados das dificuldades por parte da Prefeitura, assumimos mais essa despesa que foi além do nosso orçamento", explicou.

Juca Lombardi também ressaltou que o problema de água em São João del-Rei "não é isolado, mas em toda a cidade". Lamentou ao saber das falas de Jorge Hannas que, segundo ele, "é antiético e inapropriado um vice-prefeito culpar o empresário". "Somos de São João del-Rei e fizemos o melhor empreendimento da região dentro de todas as normas técnicas e protocolos. Não há motivos para essa perseguição", lamenta Juca.

O empresário também atribuiu a falta de água e problemas de esgoto na cidade há "anos de roubalheira e falta de investimentos em saneamento" por parte dos órgãos públicos. "Porém, enquanto empresários não seremos levianos com esta cidade”, destacou.

Problemas estruturais maiores

Segundo o diretor do Damae, Jorge Hannas Salim, "se não tomarmos providências a respeito do saneamento de São João del Rei dentro de, no máximo, dois anos, vamos ficar sem água. Essa é a realidade. No máximo dois anos e não vamos ter água na cidade, e nem nos mananciais para colocar nas casas", destacou Hannas.

"Tenho avisado ao Prefeito e aos vereadores há anos, mas ninguém diz nada!", disse o diretor que também defende a parceria público-privada (PPP) como solução para o Damae. "Nestes 20 anos tive a oportunidade de conhecer profundamente a gestão do saneamento em diversas cidades e estados do Brasil. Não cabe mais a mim provar isso aqui! Já cheguei a falar para os vereadores que a responsabilidade é deles e do prefeito", ressaltou. "Se tiver faltando água eu vou mandar procurar o prefeito e os vereadores", declarou. 

Jorge Hannas Salim, diretor da autarquia há quase 20 anos, alertou sobre a situação crítica que encontra-se o Damae e voltou a defender a PPP como solução definitiva no que diz respeito ao saneamento municipal. Segundo o diretor, "São João del-Rei não dispõe de recursos financeiros para investir em saneamento". E, ainda alertou sobre às mudanças climáticas no mundo, o consumo exacerbado de água por parte da população e o “crescimento exagerado” de novos loteamentos que, segundo o diretor, não há planejamento de infraestrutura. Além disso, Hannas informou sobre a nova portaria da Anvisa que se aplica à água destinada ao consumo humano proveniente de sistema e solução alternativa de abastecimento de água.

"Aqui acordamos com problema de água/esgoto, almoçamos com problema de água/esgoto e dormimos com problema", destaca Hannas. "Nós fazemos das tripas coração em uma autarquia que sobrevive com 43% de inadimplência", ressaltou. E, segundo ele, com tamanha inadimplência e ausências de leis punitivas e de fiscalização "é quase impossível realizar novos investimentos".

Após entregar um projeto com centenas de páginas e um CD contendo informações e as necessidades de investimentos no Damae - seja por PPP ou empréstimo com a Caixa Econômica Federal - Hannas se diz cansado com a falta de apoio do Executivo e do Legislativo. "Eu estou no limite", conclui Hannas.

 

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