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Polícia Racismo

Barbacena: Após ser preso e agredido por colegas ao passear com filha branca, PM negro é processado pela Justiça Militar

A abordagem violenta e racista ocorreu em janeiro de 2021 e a família do militar Anderson César da Silva ainda sofre com as consequências da violência policial

13/11/2021 às 12h49 Atualizada em 13/11/2021 às 13h58
Por: João P. Sacramento
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O PM Anderson César, vítima de ação violência da Polícia Militar, e filha. Foto: Arquivo pessoal
O PM Anderson César, vítima de ação violência da Polícia Militar, e filha. Foto: Arquivo pessoal

O policial militar Anderson César da Silva, de 32 anos, passeava com sua filha de quatro anos de idade em um parque em Barbacena (MG) quando foi vítima de violência policial. O motivo, segundo a vítima, foi o fato de que ele é negro e sua filha é branca. Os moradores do Bairro de Fátima denunciaram Anderson como estuprador, e, após ser espancado e preso, Anderson agora está sendo processado na Justiça Militar. 

Ao ver o homem negro entrar na mata com uma criança branca, moradores de Barbacena ligaram para a PM e um trio de PMs foram ao local, espancaram Anderson e atiraram contra seu cachorrinho quatro vezes. Apesar da violência e do racismo, Justiça Militar vai processar apenas a vítima, por crimes como desacato e resistência

O caso aconteceu na tarde de 14 de janeiro, Anderson Silva afirma que estava assando marshmallows, como nos filmes, ao lado da filha de quatro anos e do cachorro da família. O que deveria ter sido um passeio num domingo de sol, por uma trilha pelas matas de Barbacena, terminou com o policial militar vítima de racismo.

Ao ver o homem negro caminhando na trilha com uma criança branca, moradores do bairro de Fátima ligaram para a polícia e denunciaram o que, na cabeça deles, só podia ser um estupro. Um trio de PMs foi até o local e, mesmo após Anderson explicar que estava fazendo um piquenique com a filha e mostrar sua carteira funcional de policial militar, os três exigiram que ele os acompanhasse para fora da mata e ainda dispararam tiros de bala de borracha no cachorro da família, que havia avançado contra os policiais.

 

Em vídeos postados naquele dia nas redes sociais, moradores do bairro ouviram os disparos e comemoraram que a polícia estava “matando um estuprador”. Um deles pede para a PM atirar mais e celebra: “Tem que matar mesmo, até que enfim eu vi Barbacena fazer alguma coisa”.

Passados quase dez meses, a filha de Anderson ainda não se recuperou dos traumas daquele domingo e nenhum dos PMs foi denunciado, nem pelo racismo, nem pela violência. A única pessoa processada é o próprio policial negro.

A Justiça Militar aceitou denúncia do promotor Fabiano Ferreira Furlan, em junho, que acusa Anderson dos crimes de desobediência, desacato a superior, ameaça, resistência mediante ameaça ou violência e lesão corporal leve. Para esses delitos, o Código Penal Militar prevê penas de três meses a dois anos.

Marcas das agressões sofridas pelo policial militar Anderson César. Foto: Arquivo pessoal

Entenda o caso

Naquele 14 de janeiro, Anderson havia resolvido fazer um piquenique na mata com a filha enquanto a esposa, que é professora, ficava em casa fazendo tarefas da escola onde trabalha. Ao final da trilha, o PM negro estava acendendo uma fogueira quando foi abordado por três colegas: o sargento Leonardo José do Carmo e os cabos Daniel da Silva Queiroz e Adriel Rodrigues Dantas. Segundo Anderson, a abordagem foi violenta e racista. 

“Os policiais apareceram do nada e gritando. Eu peguei a minha filha no colo, falei que era militar e pai, para me resguardar, pois eles não abaixavam as armas. Minha filha estava sorridente comigo, catando folhas, antes deles chegarem. Fizeram um cerco em volta de nós, e eu como pai só queria proteger minha filha. Trataram minha filha igual gado, sem nenhuma noção do perigo”, conta. 

O pai conta que todo o procedimento de abordagem foi irregular. Os PMs não deram nenhuma ordem, apenas gritaram que eram polícia e começaram a falar no rádio, apontando a arma. Ainda segundo Anderson, os policiais chegaram a disparar 11 vezes contra seu cachorro, que latia contra os PMs na tentativa de defender a família. Segundo ele, o cachorro foi atingido por quatro tiros.

“Fui chamado de preto safado, tive a minha filha arrancada dos meus braços e os PMs me acusaram de estupro. Durante a abordagem, me enforcaram. Eu fiquei com medo, porque sei como eles agem”, relembrou a vítima.

“Eu só queria ficar com minha filha e protegê-la nesse momento, que estava sendo enforcado por muitos PMs. Parecia uma tonelada em cima do meu coração. Eu queria respirar e não conseguia”, relatou Anderson dizendo que um dos policiais, durante os ataques racistas, mandava ele olhar a própria cor e a cor da criança. Ele diz que tentou pegar o celular para gravar as ofensas racistas, mas recebeu um golpe de mata-leão (enforcamento). 

O policial ficou preso por três semanas. A criança passou por exames médicos que comprovaram que ela não sofreu nenhum tipo de abuso sexual. Além da violência física e terror psicológico.

O impacto na família

“O que os militares fizeram atrapalhou nossas relações. Na verdade, invadiram nossa privacidade. Eu e minha esposa sempre fomos boas pessoas e ela sabe o pai que sou, e eu sei a mãe que ela é. Nossa filha é muito sortuda de ter nós como pais”, disse Anderson, que sofreu nos dias posteriores porque a imprensa local noticiou o caso apontando-o como estuprador. 

Na semana seguinte ao caso, a menina passou a ter acompanhamento psicológico. A família mostrou à reportagem a um relatório, datado de julho, em que a psicóloga relata que, após ver o pai sofrer a violência, a criança “passou a apresentar alguns comportamentos mais agressivos, ficou mais sensível, passou a apresentar enurese noturna [urinar na cama], e choro fácil”, melhorando apenas após ser medicada. 

“Nos seus relatos, pude perceber que a menor é muito apegada ao pai, tendo ele como um ótimo relacionamento. Nos dias que está de folga, é ele quem traz na consulta psicológica. Nesses dias, posso constatar o bom convívio entre eles. Ela sente muita falta dele, pois ele tem passado a semana toda em Belo Horizonte, local de seu trabalho”, escreveu a psicóloga. 

O que diz a polícia

Na versão dada pelos PMs Leonardo, Daniel e Adriel, que consta da denúncia oferecida pelo Ministério Público, Anderson se recusou a ser revistado e se identificou jogando a carteira funcional no chão. 

Os PMs disseram que ele estava diante de dois superiores e exigiram que “ele pegasse a sua filha e os acompanhasse até a saída daquela mata”. Anderson teria, então, xingado e ameaçado os colegas, dizendo “Assim que eu sair eu mato vocês”.

Ao receber voz de prisão, teria resistido com socos e chutes, “tendo sido necessário o uso moderado de força por parte destes militares” para algemá-lo. Os PMs disseram, ainda, que foram atacados pelo cão da família e por isso atiraram no animal, que se afastou “depois de ter sido atingido por um dos disparos”.

Com informações: Ponte Jornalismo

 

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