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São João del-Rei: Médicos acusados de escravizar idoso de 93 anos resistem em pagar direitos após resgate, afirma site

Segundo o site Brasil de Fato, "os irmãos Dilascio Detomi se recusam a cumprir obrigações referentes a décadas de violações trabalhistas"

22/11/2021 às 22h12 Atualizada em 22/11/2021 às 23h06
Por: Adriano Vianini
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Geraldo Duarte [esq.] foi resgatado em uma ação conjunta entre o Ministério do Trabalho, a Polícia Federal e o Ministério Público do Trabalho (MPT) - Divulgação/SRTb-MG
Geraldo Duarte [esq.] foi resgatado em uma ação conjunta entre o Ministério do Trabalho, a Polícia Federal e o Ministério Público do Trabalho (MPT) - Divulgação/SRTb-MG

O site de notícias Brasil de Fato divulgou hoje (22), com exclusividade, que a família Dilascio Detomi, acusada de manter o caseiro Geraldo Duarte, de 93 anos, em condição análoga à escravidão em São João del-Rei (MG), resiste em cumprir com suas obrigações trabalhistas mesmo após o resgate do empregado, na última semana. A matéria é de Daniel Giovanaz, de São Paulo.

Segundo o site, a propriedade está registrada em nome de cinco pessoas da mesma família: os pediatras Cristiane Maria Dilascio Detomi e Carlos André Dilascio Detomi, que atua como cirurgião e é coordenador do curso de Medicina do Centro Universitário Presidente Tancredo de Almeida Neves, a mãe deles, Maria Luiza Dilascio Detomi, além dos irmãos, a pedagoga Adriane Maria Dilascio Detomi e Souza e o enfermeiro, Marcos André Dilascio Detomi, conhecido como Marquinhos, administrador da empresa Plano de Assistência Médico Hospitalar Ltda (PLAMEDH).

Eles terão que pagar todos direitos subtraídos do trabalhador durante o período de serviço e responder pelo crime de submeter uma pessoa à condição análoga à escravidão. Foram lavrados 12 autos de infração, e o MPT busca a reparação integral dos valores, além de uma compensação pelo dano moral individual.

Até o momento, segundo o site, os empregadores teriam pago cerca de R$ 19 mil, referentes aos últimos cinco anos de trabalho.


Piscina da casa onde os patrões passavam os fins de semana, em São João del-Rei / Divulgação/SRTb-MG

Segundo informações obtidas pelo Brasil de Fato, até a última quarta-feira (17), a família teria aceitado pagar R$ 128 mil, que correspondem aos direitos subtraídos desde 1995. Segundo o site, naquela noite, no entanto, o advogado e primo dos empregadores, Victor Tarôco, informou aos procuradores que não havia interesse em fazer acordo para além dos R$ 19 mil. "A reportagem ouviu o posicionamento da família a respeito do caso, por meio do advogado. A resposta encaminhada por Tarôco foi incluída na íntegra ao final desta matéria".

Assédio dos empregadores

Segundo o site, "o caseiro Geraldo Duarte teria sofrido assédio por parte dos empregadores ao menos duas vezes desde o início das investigações. No dia 11, os quatro irmãos Dilascio Detomi teriam ido com o advogado Victor Tarôco ao sítio e pressionado o trabalhador e a esposa a deixarem o imóvel imediatamente. Eles já estavam cientes da investigação, e insistiram que o casal dissesse de onde teria partido a denúncia. Uma semana depois, no dia 17, Duarte teria sofrido novas pressões, desta vez por telefone. Os empregadores teriam tentado propor um acordo, mas o empregado não aceitou".

Outro lado

“A família lamenta a forma como a situação está sendo exposta, uma vez que não condiz com a realidade dos fatos, informando que os devidos esclarecimentos já estão sendo prestados aos órgãos competentes. Conforme contido nos autos de infração, o Sr. Geraldo sempre recebeu salário, além de receber um auxílio governamental (BPC), tendo ganhado da família 2 hectares de terra que já se encontravam em seu nome para que ele pudesse construir sua casa”, diz a nota enviada por Tarôco.

“O Sr. Geraldo ainda pediu para ficar no sítio até a data de hoje [22/11], conforme Ata dos Ficais do Trabalho, para que ele pudesse retirar do local suas cinco vacas, as diversas galinhas que nem soube precisar a quantidade, sua picadeira de trato para os animais, além dos diversos demais objetos que lá possuía”, acrescentam os familiares, por meio do advogado.

Os empregadores ressaltam que sempre garantiram auxílio assistencial e médico ao trabalhador, que nunca havia reclamado à família sobre sua situação.

“Cabe ainda esclarecer que o Sr. Geraldo sempre manteve em sua companhia no local quatro filhos maiores de idade que, identicamente, nunca reclamaram de nada, vindo a realizar a inditosa denuncia quando tiveram ciência de que o imóvel seria vendido”, completa a nota.

“Esclarecem ainda que as imagens que estão sendo divulgadas não correspondem ao imóvel que era de fato utilizado pelo Sr. Geraldo, e que já estava desocupado quando da chegada da fiscalização, tanto é que o mesmo até hoje permanece no local.”

Essa informação vai de encontro ao que foi apurado pelo Brasil de Fato junto aos órgãos competentes. Geraldo Duarte teria sido levado à casa da filha, onde aguarda o pagamento de seus direitos por parte dos empregadores.

Escravidão

Geraldo Duarte, de 93 anos, foi submetido a condições análoga à escravidão e resgatado na quinta-feira (18) por auditores-fiscais do Trabalho da Superintendência Regional do Trabalho de Minas Gerais (SRTb/MG). O idoso vivia em um sítio localizado na zona rural de São João Del Rei. A vítima foi mantida em situação degradante por 26 anos. Segundo a SRTb/MG, ele trabalhava como caseiro da propriedade, sem carteira assinada, férias e 13º salário.

A ação contou com a participação do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal. A casa ocupada pelo idoso era fornecida pelos patrões e estava em condições precárias, com o telhado quebrado, a varanda a ponto de desabar, os forros apodrecidos e as fiações elétricas expostas e com gambiarras.

O auditor-fiscal do Trabalho, Luciano Rezende, relatou que “a esposa do trabalhador disse durante a ação fiscal que era necessário desligar o relógio de luz quando chovia para evitar o risco de choques elétricos, ficando o casal, portanto, molhado, com frio e no escuro. A família tentava, em vão, evitar as goteiras colando fita crepe no forro”.

A situação degradante seguia por outros pontos da residência. O banheiro da casa estava com a descarga do vaso sanitário sem funcionar há anos. O idoso e sua família eram obrigados a usar baldes, e não havia pia para lavar as mãos. O casal usava uma vasilha para fazer as necessidades dentro do quarto.

Rezende ainda afirmou que o trabalhador idoso era obrigado a dormir em um quarto com goteiras e janela sem vidro, por onde poderiam entrar insetos e animais peçonhentos da zona rural e que sujeitava o empregado às intempéries (vento, frio e chuva). uma vez que estamos em região de clima frio.

Fonte: Brasil de Fato 

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