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Douglas Tholedo: Dos palcos da UFSJ para a carreira nos musicais da Broadway

Com participação em grandes espetáculos produzidos no Brasil como Les Misérables, O Fantasma da Ópera e We Will Rock You, ex-estudante da UFSJ agora segue carreira internacional

29/04/2022 às 16h03 Atualizada em 29/04/2022 às 20h02
Por: João P. Sacramento
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Douglas Tholedo: Dos palcos da UFSJ para a carreira nos musicais da Broadway. Foto: Reprodução / douglastholedo.com
Douglas Tholedo: Dos palcos da UFSJ para a carreira nos musicais da Broadway. Foto: Reprodução / douglastholedo.com

Com a garganta preparada e a coreografia ensaiada, Douglas Tholedo, de 35 anos, está cantando, dançando e conquistando os palcos do Brasil e do mundo. Nascido em Juiz de Fora, Douglas passou por São João del-Rei durante sua formação, e sua trajetória o levou para Nova Iorque, a cidade dos musicais.

Quando o assunto é teatro musical, a primeira qualidade que me vem à cabeça é o profissionalismo. Gênero característico por cenários exuberantes e grandes produções, os musicais se caracterizam, principalmente, por atores capazes de cantar, dançar e interpretar – com igual propriedade. E Douglas Tholedo tem mais uma qualidade: Determinação.

Atualmente morando em Nova Iorque, nos Estados Unidos, o ator, vencedor do prêmio de Melhor Ator no Festival Nacional de Teatro de Minas Gerais (2002), conta que começou a se dedicar às artes ainda na infância. Com apenas 9 anos começou a cantar e, já na escola, o teatro entrou em sua vida. 

“Sempre fiz teatro, desde a época da escola e, com o tempo, percebi que gostaria de me profissionalizar. Foi então que me tornei ator profissional e continuei me dedicando à música e ao teatro”, contou Tholedo. 

Douglas lembra que sua família nunca se opôs ao fato dele querer ser artista que, por não ter muitas condições, sempre teve oportunidades em projetos de arte dos mais variados, onde pôde estudar com bolsas de estudo. “Na minha família, sou especialmente grato à minha mãe. Mesmo em um país com tão pouco incentivo nas artes, ela acreditou em mim”, disse. 

Foto: Reprodução / douglastholedo.com

São João del-Rei e a faculdade de Música

Mesmo estudando alguns instrumentos como piano e viola clássica, o canto sempre foi o que possibilitou Douglas Tholedo a juntar o teatro com a música. Neste momento, São João del-Rei entrou no caminho do artista. 

“Decidi fazer a faculdade de canto lírico e fui aprovado no curso de música, com habilitação em Canto, da UFSJ. A faculdade foi um período de muitas descobertas e possibilidades na minha carreira. Foi uma época muito intensa” relembrou Tholedo. 

São João del-Rei, segundo o artista, foi muito importante na sua formação universitária e no desenvolvimento do professor de voz, trabalho que ele divide com a carreira como performer e professor. “Os professores e mestres que me guiaram durante o meu processo também me marcaram muito. Alguns deles tiveram papel fundamental me incentivando a seguir e me ajudando a direcionar minha carreira”, lembrou. 

Além de tudo isso, Douglas diz que sente muitas saudades das pessoas que o acolheram na cidade e que viraram uma família para ele. “Jamais vou me esquecer”, disse. “Cada lugar que visitamos, moramos, nos traz uma sensação diferente. Tenho saudades dessa época. Um clima de nostalgia de quando eu era mais jovem, com mil e um sonhos na mochila”, completou. 

Foto: Reprodução / douglastholedo.com

Surge o Teatro Musical

Douglas conta que o Teatro Musical entrou na sua vida durante os workshops que fez na UFSJ, na graduação em canto lírico. “Aquele som da técnica americana 'Broadway' me deixou fascinado”, relembrou. 

O músico, que vinha de uma formação mais clássica, ficou maravilhado com as possibilidades técnicas, principalmente no que diz respeito ao canto, e isso despertou nele a vontade de seguir para essa área. “A voz de teatro musical que tinha uma proximidade com a voz falada e o timbre do estilo Broadway me pegaram de jeito”, brincou Douglas.

Foto: Reprodução / douglastholedo.com

O Cenário de Teatro Musical no Brasil

Antes mesmo de terminar a faculdade, Douglas Tholedo já sabia que iria seguir para uma área diferente. Segundo ele, o Brasil carece de apoio à cultura em geral, e ele sabia que se quisesse seguir carreira como cantor lírico precisaria mudar de país. 

“Isso não estava nos meus planos naquele momento. Porém, o teatro musical estava se popularizando consideravelmente, principalmente em São Paulo. Foi então que, ao me graduar, decidi ir para São Paulo para estudar mais e me especializar em teatro musical no estilo Broadway”, contou.

Já graduado, e em São Paulo, Douglas fez diversos workshops e aulas, o que ele considera como “uma verdadeira imersão''. “Comecei a trabalhar como preparador vocal em cursos voltados especificamente para teatro musical e fazer audições para atuar como performer. Desde então, não parei mais”, comentou o artista.

Os musicais brasileiros

Sobre sua experiência em musicais no Brasil, Douglas decidiu elencar três shows que foram bem diferentes estilisticamente entre si, para contar um pouco da experiência dele atuando nesses projetos.

Foto: Reprodução / douglastholedo.com

Douglas contou que Les Misérables foi um dos que mais gostou de fazer. Para ele, o show é “um musical completo, uma verdadeira obra de arte. Música deslumbrante e encenação forte, cheia de representações que falam de união, luta por direitos, amor, trajetórias de vida e superação”.

Les Misérables é um musical francês composto por Claude-Michel Schönberg em 1980, com libreto de Alain Boublil e letras de Herbert Kretzmer. É um dos musicais mais famosos e mais encenados pelo mundo. Baseado no romance épico francês homônimo, de Victor Hugo, o musical se passa na França do início do século XIX e acompanha as histórias entrelaçadas de um elenco de personagens que lutam por redenção e pela revolução.

“É um show intenso e com cenas muito marcantes. A cena da barricada no segundo ato é uma sequência de mais de 40 minutos em cena direto, com encenações dos combates que culmina no sacrifício dos revolucionários pelos seus ideais”, contou o ator que interpretou o estudante revolucionário Courfeyrac.

 

 

Foto: Reprodução / douglastholedo.com

Douglas Tholedo considera que o show O Fantasma da Ópera foi um grande divisor de águas na sua carreira como artista. Considerado um dos musicais mais famosos de todos os tempos, Tholedo comentou que “é o musical que está há mais tempo em cartaz na Broadway”, sendo mais de mais de 30 anos consecutivamente.

O Fantasma da Ópera é um musical composto e co-escrito por Andrew Lloyd Webber, baseado no romance homônimo de Gaston Leroux. As músicas são composições de Andrew Lloyd Webber, com letras de Charles Hart e letras adicionais por Richard Stilgoe. O musical narra a história de uma bela soprano, Christine Daaé, que passa a ser a obsessão de um gênio musical conhecido como "O Fantasma da Ópera", já que ninguém o vê nem sabe quem é.

“O espetáculo é pomposo, com cenários grandiosos, figurinos de época, tudo muito luxuoso. A música é inconfundível: todo mundo já ouviu alguma vez na vida alguma música desse musical”, contou, empolgado. 

Neste show, Douglas interpretou o ensaiador da ópera, Monsieur Reyer. Em algumas sessões, Douglas também era cover de Monsieur André, um dos empresários da ópera de Paris.

Foto: Reprodução / douglastholedo.com

Para fechar, mas não menos importante, Douglas comenta do show We Will Rock You, que, segundo ele, “também foi intenso”. O musical tinha como trilha sonora a banda Queen, “cheio de clássicos do rock com muita maquiagem, cabelos (perucas) e figurinos rebeldes'', lembrou o ator.

Considerado como um musical de jukebox, o musical foi escrito pelo comediante e autor inglês Ben Elton em parceria com os membros do Queen, Brian May e Roger Taylor. “Era uma libertação fazer essa peça e, ao mesmo tempo, uma aventura de cantar pop e rock em um show com muitas coreografias e tecnologia”, contou Douglas. 

Nessa montagem, o artista fazia o boêmio Axl Rose e também era cover do protagonista, Galileu.

Sobre o mercado de Musicais no Brasil, Douglas aponta que, mesmo de longe, vê muitas coisas acontecendo. “O Brasil tem tudo que precisa quando se fala em talento, como artistas, atores, cantores e bailarinos, para fazer as grandes produções, tanto internacionais, quanto nacionais”, disse. 

Inspirações

“Posso citar alguns como Ramin Karimloo, Patti LuPone, Hugh Jackman, Audra McDonald, Nathan Lane, Sutton Foster, Jeremy Jordan e tantos outros artistas que admiro e que fizeram, e estão fazendo, história na Broadway, que são inspiração para mim”, começou, mas para Douglas, são os colegas de trabalho com os quais contracenou que são inspirações para ele. 

“Já trabalhei com tantas inspirações, artistas que dão verdadeiras aulas no palco, e fora dele. Não basta ser um ótimo artista,é preciso ser uma pessoa legal também”, aponta. 

Douglas ainda afirmou que mantém sempre em mente sempre que “antes de ser um artista magnífico, é preciso ser um ser humano magnífico. Saber trabalhar em equipe, cooperar com quem trabalha com você, dividir a cena de verdade. Tudo isso conta muito. E as pessoas que sabem fazer isso me inspiram mais ainda”.

Foto: Reprodução / douglastholedo.com

O sonho americano

Sobre morar fora do país, Douglas contou que sempre teve vontade de viver a experiência de uma outra língua, outra cultura. “Os EUA e, mais especificamente Nova Iorque, por ser o "berço" do teatro musical, sempre foi um dos lugares mais interessantes para se viver, ao meu ver”, avaliou. 

Mesmo feliz fazendo carreira no Brasil, Douglas sentiu a vontade de se conectar direto com a fonte, estudar com mestres que estavam fazendo carreira na Broadway, assistir aos musicais ao vivo e viver essa realidade de alguma forma. 

“Um dos meus objetivos era estudar voz profissional e, principalmente, a técnica americana de canto usada nos musicais da Broadway. Aqui em NY, encontrei exatamente os cursos que me deram essa base”, disse o artista, que foi aprovado para ser aluno de canto por um semestre especial na The Juilliard School, que ele avaliou como: “uma experiência inesquecível e que aproveitei ao máximo”. 

 

 

 

 

Foto: Reprodução / douglastholedo.com

Nova Iorque: A cidade dos musicais

Quando a gente pensa em Nova Iorque, o que vem na nossa cabeça são prédios altos, os famosos táxis amarelos e a Broadway, uma avenida de 30 km lotada de teatros. De acordo com Douglas, “a cidade respira cultura, musical, arte, teatro, música, ópera, dança por todos os lados. E, pra quem gosta de Broadway, é tudo isso e mais um pouco. É indescritível”.

Mas Nova Iorque tem outro som para o artista. Para ele, estar lá representa superação. Tholedo lembrou que “nada é fácil quando se pensa em mudar de país e se manter estudando e trabalhando, mas, isso não me desanimou”.

Pelo contrário, as dificuldades deram mais gás para o artista mineiro continuar seguindo meus objetivos. “Trabalho duro, muito estudo, aprofundamento na língua e o eterno caminho do artista: saber lidar com as oscilações da carreira. Muitos "não", alguns "sim", e alguns "nãos" hoje que significarão "sins" amanhã. Ou seja, tudo na hora certa. Paciência e persistência”.

Um futuro no Brasil?

“Acredito que nunca devemos fechar portas. O Brasil tem um dos maiores mercados de musicais do mundo e espetáculos com cada vez mais estrutura e grandiosidade. Além de artistas fenomenais, os quais admiro muito”, falou Douglas.

O artista disse que não tem datas e planos fechados para voltar ao Brasil. De acordo com ele, está tentando me manter aberto ao que o universo me oferece como oportunidade de crescimento pessoal e profissional. 

“O futuro é uma caixinha de surpresas. Tomara que venham muitas boas!”, concluiu Douglas. 

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