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Opinião Artigo

Em tempo de pandemia: próximos passos da Europa, “e nós com isso”?

Santuário de Fátima, vazio pela primeira vez de milhares de peregrinos nas celebrações do dia 13 de maio.

13/05/2020 19h45 Atualizada há 3 semanas
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Por: Adriano Vianini
Jornalista José Venâncio Resende. Foto: Acervo pessoal
Jornalista José Venâncio Resende. Foto: Acervo pessoal

Por José Venâncio Resende*

Há pouco mais de um mês do início do verão, vários países europeus começam, ainda timidamente, seu processo de desconfinamento diante do fantasma da pandemia de covid-19 que já infectou mais de 4,26 milhões de pessoas e já matou mais de 292 mil pessoas no mundo desde que surgiu em dezembro na China. Há sempre o temor de que haja novos aumentos da taxa de contágio ou mesmo uma nova onda de infecções à frente, o que deixa governos e instituições europeias alertas quanto ao rigor no cumprimento das regras atuais e ao mesmo tempo a exigir medidas adicionais. Ou seja, os países devem suspender as restrições existentes de forma gradual, sem perder de vista a evolução do quadro epidemiológico.

A partir desta segunda (11), a Espanha iniciou a primeira fase de ingresso no “novo normal”, com limitação de público para reuniões sociais, funerais e cerimônias religiosas; abertura controlada do pequeno comércio, de cafés e restaurantes ao ar livre (com metade das mesas) e abertura parcial de fronteiras (Galiza, Estremadura e Andaluzia com Portugal) apenas para circulação de mercadorias, bem como reservas para hoteis. Abrir fronteiras com França depende do presidende Emmanuel Macron. Nesta fase, a Espanha mantém as medidas mais restritivas em cidades com maior densidade populacional, como Madrid, Barcelona e Valência. 

Em geral, o desconfinamento gradativo na Europa obedece critérios como abertura por regiões (as menos atingidas pela pandemia), por setores da economia (a partir de pequenos negócios) e por idade (horário especial para idosos). Tudo acompanhado de medidas rigorosas de distanciamento social e de higiene e limpeza. E sempre de olho nas curvas de cotágios e de fatalidades (mortes), para evitar recaída e, no futuro, alguma possível nova onda de incidência do coronavírus. 

Os novos tempos vão exigir novos hábitos, nada será como antes até pelo menos surgir uma vacina ou medicamentos eficientes. 

Portugal

Em Portugal, que começa a voltar à normalidade, sinal dos tempos foi o Santuário de Fátima vazio nesse 13 de maio pela primeira vez de milhares de peregrinos. Já as associações de albergues discutem o futuro do Caminho de Santiago (veja reportagem no site do JL), que até a pandemia recebia milhares de peregrinos por ano, mas agora depende da reabertura da Catedral de Santiago de Compostela e das fronteiras com a Espanha. Ao nível doméstico, há um otimismo contido por parte das autoridades com a redução no número de casos da doença e de mortes. 

No relatório da autoridade de saúde do dia 12 de maio, o número de mortes era de 1.175 (abaixo dos 3.182 recuperados) para um total de 28.132 casos confirmados. Importante observar que o R0 (que indica quantas pessoas são infectadas por um único doente com covid-19) tem tendência decrescente e a taxa de ocupação das unidades de cuidados intensivos está estável em cerca de 50%. A prioridade é testar, testar, testar.

Neste momento, discute-se o retorno às escolas, com alunos organizados por grupos e zonas de ocupação, mantendo o distanciamento dentro e fora das salas de aula, uso de máscaras, muita ventilação e desinfecção à entrada e saída da escola. 

Desde 4 de maio, funciona um plano desconfinamento, com medidas iniciais como lotação de 2/3 nos transportes públicos, manutenção do regime de teletrabalho e funcionamento do pequeno comércio local com porta aberta (lojas, cabeleireiros, manicures, livrarias); bibliotecas e arquivos; prática de esportes individuais ao ar livre (sem utilização de balneários nem piscinas). 

A partir do dia 18 de maio, lojas com porta aberta para a rua (até 400m2),  restaurantes, cafés e pastelarias inclusive ao ar livre; escolas e equipamentos sociais na área da deficiência, creches (com opção de apoio à família); museus, monumentos e palácios, galerias de arte e similares. Dias 30 e 31 de maio, cerimônias religiosas (celebrações comunitárias com regras pré-definidas). E, a partir de 1º de junho, teletrabalho parcial; lojas de cidadão; lojas (área superior a 400m2 ou inseridas em centros comerciais); creches e pré-escolar; cinemas, teatros, auditórios e salas de espetáculos; e o retorno do futebol, provavelmente em 4 de julho. 

Sempre com uso obrigatório de máscaras, higienização e limpeza, distanciamento social, atendimento com marcação prévia (quando for o caso) e horários de funcionamento. Não deverá ser muito diferente em outros países, a não ser nas velocidades de implantação das medidas. Tenho a sensação de que nesse processo uns países vão aprendendo com os outros. Parece maçante falar destes detalhes, mas este é um aprendizado que, de alguma forma, nós brasileiros teremos de enfrentar em algum momento. 

Não varia muito de país para país europeu. Retomada gradual das atividades, inclusive do futebol (com muitos testes dos jogadores, isolamento e estádios vazios etc.); uso obrigatório de máscaras e limitação de passageiros nos transportes públicos; estímulo ao uso de transportes alternativos como bicicletas; distanciamento social e medidas rígidas de higiene e limpeza em escolas e restaurantes; controle de aglomerações em espaço públicos (praias, parques etc.), restrições à realização de festivais e eventos de massa; e retardamento na abertura de fronteiras entre países. 

Diferenças

O governo alemão, que se caracteriza pela cautela, começa a atenuar o confinamento. Desde o início da crise, a estratégia alemã é a de realizar o máximo de testes, de maneira a monitorar a propagação do vírus e a imunidade de rebanho (IR), segundo o biólogo Fernando Reinach (em artigo no jornal O Estado de S.Paulo, de 20 de abril). Com isso, conseguiu manter um número proporcionalmente pequeno de mortes, em relação ao número de casos de covid-19, e não sobrecarregou o sistema hospitalar, tanto que emprestou respiradores para outros países e recebeu pacientes dos vizinhos. 

Porém, justo no momento em que o país começa o abrandamento, as autoridades de saúde informam que a taxa de contágio voltou a subir para 1.1 (cada pessoa com covid-19 contagia 1,1 pessoas), em relação a 0,65 anteriormente. Com isso, acende o sinal amarelo em estados como Renânia do Norte-Vestefália, que começa a levantar restrições em setores como restaurantes e ginásios. Motivo de preocupação para a chanceler Angela Merkel, que já vinha relaxando as restrições, com a reabertura de lojas e das escolas primárias. E manifestações vem ocorrendo em várias cidades do país contra as medidas de contenção social ainda em vigor.

Já o Reino Unido, que titubeou no início pandemia, anuncia agora que vai manter as medidas restritivas pelo menos até 1º de junho. A evolução da situação será monitorada aos níveis local, regional e nacional, para evitar a surpresa de novo surto. A exemplo de outros países, a aposta é a retomada por etapas, abrangendo indústria, comércio, retorno às aulas, restaurantes, pubs etc.. Com restrições, as pessoas já podem praticar exercícios ao ar livre, tomar sol nos parques ou em outros locais e até jogar futebol com os familiares. O primeiro-ministro Boris Johnson apelou ao “senso comum britânico”. Porém, o que se vê é um início caótico de desconfinamento – trens e ônibus cheios e muitas pessoas sem máscaras - num país onde o coronavírus já matou mais mais de 33 mil pessoas.   

Em sua última aparição na TVI portuguesa, o analista Paulo Portas fez um paralelo entre entre Portugal e Suécia, cujas populações são equivalentes e o sistema de saúde não é muito diferente. Do ponto de vista econômico, também há semelhança, tanto em termos de queda do PIB quanto de aumento do desemprego. A Suécia apresenta, ligeiramente, menos casos de contágio do que Portugal, mas tem uma taxa de mortalidade de 32 óbitos por 100 mil habitantes, quase três vezes a portuguesa. O que torna discutível a decisão de confinar pouco, que custou ao país uma taxa de fatalidades mais alta, na expectativa de chegar a uma imunidade de grupo de 40%. 

Portas destacou, ainda, a ação rápida (entre o primeiro caso e o confinamento) dos países escandinavos, do Leste europeu, dos Balcãs e do centro da Europa (Áustria), assim como da Coreia do Sul, no sentido de conter os contágios e as mortes por covid-19, o que permitiu que pudessem desconfinar mais cedo. Esses países, por exemplo, fecharam (e mantém fechadas) suas fronteiras à entrada de portadores do vírus. 

Portas destaca que a Áustria começou o desconfinamento há várias semanas sem que houvesse qualquer novo surto da doença. A explicação é a existência da “cultura do medo” e a disciplina ao cumprir regras. Muitos desses países pertenceram ou fizeram fronteira com a antiga União Soviética, sem falar do trauma de guerras no passado. Além disso, em países como Áustria e Hungria, predominou o contágio em pessoas jovens, com taxa de sobrevivência mais elevada.        

Citada como caso de sucesso, a Coreia do Sul viu-se de repente às voltas com o aumento inesperado nos casos de infecções, o que foi associado à reabertura dos estabelecimentos de diversão noturna em Seul. Sem perder tempo, as autoridades decidiram encerrar mais de dois mil bares e discotecas na capital sul-coreana. Este é um risco permanente. 

Divisão 

“Só podemos derrotar o vírus se assumirmos a responsabilidade de uns pelos outros. Se trabalharmos em conjunto para encontrar uma vacina. Se unirmos força para que nossa economia volte ao bom caminho.” Esta declaração da presidente da Comissão Europeia (CE), a alemã Ursula Gertrud von der Leyen, por ocasião das comemorações do “Dia da Europa” em 9 de abril, não esconde que a Europa é outra: um continente dividido, 70 anos depois da fundação da União Europeia. 

Mais grave ainda, dividida em meio a uma crise monumental como não se via desde a Segunda Guerra Mundial. Tanto que o presidente do Eurogrupo (que reúne os ministros de Finanças da região), o português Mário Centeno, está defendendo um “plano poderoso” para recuperar a Europa, por considerar que a atual crise é mais do que um choque econômico: “Vivemos uma tragédia humana e um desafio à nossa forma de vida”. 

Um poderoso plano cuja ideia talvez seja inspirada no “Plano Marshall” (oficialmente Programa de Recuperação da Europa), liderado pelos Estados Unidos para a reconstrução do continente nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Com a diferença de que, desta vez, não haverá dinheiro americano para bancar o plano.  

Não bastasse a falta de recursos, voltou à tona a clara divisão entre as “Europas” do norte e do sul, que coloca em risco o projeto europeu (que acaba de perder o Reino Unido) diante da emergência de enfrentar a greve crise econômica decorrente da pandemia. A Alemanha, que bem poderia ser comparada à formiga no conto da “Cigarra e a Formiga”, e a Holanda lideram a resistência contra a proposta, defendida por Itália, Espanha e Portugal, de emissão de dívida comum (os chamados “coronabonds”) pelo Banco Central Europeu (BCE) para financiar a recuperação da economia. Ou seja, há uma clara divergência sobre a maneira como os países europeus vão lidar com esta emergência, colocando em xeque a “solidariedade” europeia. Diante de medidas de restrição e da sobrecarga dos sistemas de saúde e de segurança social, os países europeus terão de financiar enormes déficits públicos, num momento de queda no PIB (Produto Interno Bruto) de até 10% e do aumento insuportável do desemprego.   

Um desses momentos de divergência explícita ocorreu no final de março em reunião do Conselho Europeu (por videoconferência) que congrega os 27 países. O ministro holandês das Finanças, Wopke Hoekstra, manifestou oposição à emissão de títulos de dívida europeus (os chamados “coronabonds”), defendida por Itália, Espanha e Portugal, a exemplo dos “eurobonds” que financiaram a recuperação europeia da crise financeira de 2007-2008, com a injeção nos sistemas financeiros europeus de cerca de US$ 1,58 trilhão (valores correntes da época). 

Após a reunião, o primeiro-ministro português foi questionado sobre declarações de Hoekstra, que teria sugerido que a Comissão Europeia devia investigar países como Espanha por alegar não ter margem orçamental para lidar com os efeitos da crise provocada pela pandemia da covid-19. Antônio Costa indignou-se, denominando o discurso “repugnante”, “uma absoluta inconsciência” e uma “mesquinhez recorrente”, que “mina completamente aquilo que é o espírito da União Europeia e é uma ameaça ao futuro da União Europeia”.  

Posteriormente, em entrevista à estação holandesa RTL Z, Hoekstra reconheceu que foi infeliz nas suas posições em resposta econômica à pandemia, que mostrou pouca “empatia” com os países do sul da Europa, sobretudo no momento que vivemos. Porém, o ministro das Finanças reiterou a oposição da Holanda sobre os ‘coronabonds’ e insistiu que a mutualização da dívida reclamada por vários Estados-membros é uma má ideia. 

Passados mais de dois meses da polêmica, as negociações continuam difíceis, de acordo com o analista Paulo Portas, que alerta: até agora a Comissão Europeia não apresentou o quadro financeiro plurianual (que define o plano de despesas a longo prazo da União Europeia e deverá ser modificado com a crise) e o plano de recupeção da economia. “Permanece a divisão entre as duas Europas” sobre o plano de recuperação, que está atrasado em relação à China e aos Estados Unidos. O ponto de discórdia está entre empréstimos (que implicam garantias e portanto dívidas) e subvenções. Portugal depende desses apoios para superar suas dificuldades, assinala Portas. O destino das economias do sul da Europa, mais atingidas pela pandemia, está atrelado à aprovação deste fundo de recuperação, cuja necessidade de recursos é estimada em 1,1 trilhão de dólares, de acordo com a revista britânica The Economist.

Há alguns meses do início da pandemia, a proposta está sendo discutida pelo Eurogrupo (ministros de finanças) por solicitação do Conselho Europeu.  Mas até agora não há propostas concretas para uma resposta comum aos choques provocados pela pandemia de covid-19 nas economias europeias. “Todos os países vão sair aleijados dessa situação”, resume Portas. Vão ser um “salve-se quem puder”, pois vão ter de “definir planos de competitividade muito agressivos” para buscar investimentos e aumentar exportações, a fim de superar os efeitos da pandemia e da brutal recessão (queda no PIB e aumento do desemprego). 

“E nós com isso?”

Apesar dos antiglobalistas, estamos todos no mesmo barco. A saúde da economia europeia é de fundamental importância para o Brasil, tanto como fonte de receitas de exportações como de oportunidades para investimentos produtivos, por ser o espaço europeu um dos maiores mercados consumidores do mundo. 

É bom lembrar que, na pós-pandemia, deverá haver um rearranjo das cadeias de produção, principalmente em setores estratégicos como medicamentos e tecnologia da informação, de maneira a se reduzir a dependência do continente asiático, sobretudo da China. Não consigo compreender porque até hoje o Brasil não liderou a formação de cadeias de produção na América Latina, independente de ideologias políticas, que trabalhasse a complementaridade entre países.  

 

*José Venâncio de Resende é diretor regional e jornalista responsável pelo Jornal das Lajes. Nasceu em Resende Costa e formou-se em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, em 1976. Venâncio, que também é bacharel em Economia, construiu sua carreira profissional na capital paulista, onde trabalhou em grandes jornais como Diário Popular, O Estado de S. Paulo e Gazeta Mercantil. Desde  2013, o jornalista divide o tempo entre Brasil e Portugal, escrevendo sobre economia, história e cultura.
É autor de diversos livros, entre eles: Baronesa de Arary – Nobres pobres, artistas, oportunistas... (Scortecci Editora, 2003); Construtores do Jornalismo Econômico – da cotação do boi ao congelamento de preços (Ícone Editora, 2005); Vendedora de Ilusões – Golpe de mestre na rota Minas Gerais-Londres-São Paulo, em parceria com Mari-Lidia Mendonça (O Artífice Editorial, 2004); A política em municípios dos Campos das Vertentes (Coleção Lageana, amiRCo, 2016). Recentemente, lançou em Resende Costa e em Portugal o livro “Cidades e Resendes”, que acaba de ser publicado pela Chiado Editora.

Fontes: Euronews, TVI, Observador e Jornal de Negócios  

Agradecimento: Jornal das Lajes

    

 

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