Sexta, 05 de Junho de 2020 19:22
32 999532355
Cultura Mari P

Rapper Mari P canta a negritude da periferia de SJDR

Apesar de todos os preconceitos, SJDR ainda tem vozes de resistência

23/05/2020 13h03 Atualizada há 6 dias
741
Por: Adriano Vianini
Rapper Mari P. Foto: Divulgação
Rapper Mari P. Foto: Divulgação

Com mais de 12 anos no Hip hop e 5 no Rap, a São-Joanense Mari P lança nova música e videoclip "POESIA À 6 - Música do Projeto Oficina de Rima e Poesia da Perifa". A Rapper escolheu o bairro do Araçá, periferia de São João del-Rei, para transmitir seus conhecimentos e, especialmente, ecoar sua voz e de dezenas de jovens e moradores da região que participam do seu projeto social. "Foram mais de um ano e meio de trabalho para o lançamento da música e do videoclip de forma colaborativa", conta a cantora.

Mulher, negra e artista de Hip hop, Mari P - que também é psicóloga e mestranda em Psicologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) - é uma das poucas vozes mineiras que versa em suas canções a negritude, a raça negra e a luta e resistência da mulher da periferia. O videoclip está disponível no seu canal do YouTube.

São João del-Rei é uma cidade culturalmente rica, porém a predominância musical está estacionada há anos no estilo sertanejo. Abordar formas de resistência chega a ser um tabu por aqui. E um desses talentos notáveis é a Rapper Mari P, que valoriza toda a cultura do movimento negro e do hip hop São-Joanense e, de maneira tímida mas forte, conquista o público pela versatilidade e polivalência nas canções sobre a periferia, a mulher e a negritude. “POESIA À 6” trata sobre esses temas com maestria.

Confira a entrevista de Mari P Rapper para o Portal Mais Vertentes:

Nome: Marina Paula Sacramento do Carmo (Mari P Rapper)

Idade: 30 anos

Profissão: Psicóloga e mestranda do curso de Psicologia da UFSJ

Nascida e criada em: São João del-Rei

Como surgiu a Mari P Rapper?

Há cerca de cinco anos. Surgiu a partir de uma Oficina e Rima que fiz junto com o Grupo Dandara de SJDR - coletivo de feminismo negro - e que foi composto por mulheres negras universitárias, tentando expandir para além da universidade. Realizamos uma oficina na E. E. Dr. Garcia de Lima e, antes dela, resolvi compor uma letra e chegar com um modelo de construção de rimas, poesias e letras. As pessoas gostaram do resultado e eu também. Com isso, comecei a cantar. Os temas que trago são ligados à questão racial, a periferia, o feminismo, o protagonismo da juventude, variadas opressões que sofremos da sociedade e, principalmente, o potencial e a capacidade que temos para enfrentar essas situações. Mesmo a sociedade dizendo o tempo todo que nós negros periféricos não temos oportunidades e capacidades, mesmo o racismo gritando o tempo todo, nós somos capazes. Por isso, meu álbum se chama Resista. Meu posicionamento também é de transmitir informações que foram e são importantes para mim, como competência, talento, valorização, amor. A Mari P surgiu da percepção da urgência para que determinados conhecimentos fossem compartilhados e democratizados. O Rap surgiu como uma ferramenta potente neste sentido de uma forma de expressão de sentimentos, pensamentos e variadas ideias e vivências.

 

Como surgiu o Projeto Oficina de Rima e Poesia da Perifa? 

Surgiu há cerca de 1,5 ano. Foi a partir da minha percepção em oferecer oficinas contínuas, com local físico próprio, com pessoas fixas e frequência. Essa percepção veio por que já oferecia oficinas em escolas, projetos sociais e eventos. Porém, elas eram feitas de forma mais esporádicas e reduzidas. Apesar disso, havia resultados. Daí pensei que poderia estender o projeto e oferecer resultados mais amplos para os jovens. Aí veio o Araçá, um bairro da periferia de SJDr, cheio de mazelas mas também de oportunidades. O bairro também possui muita desigualdade de acessos e poucas atividades culturais, artísticos e outros. Me coloquei nesta função de desenvolver nesta localidade um Projeto Oficina de Rima e Poesia da Perifa. Morei no Senhor dos Montes por 29 anos, e o Araçá ali do ladinho com poucas atividades. Percebi que ali poderia ser um espaço bacana para que eu pudesse levar estas oficinas.

 

Como você concilia o trabalho entre psicóloga e artista  Hip Hop?

Concilio a partir da seguinte perspectiva: a psicologia possui uma área que é a psicologia social que visa trazer um olhar mais crítico em relação a própria sociedade. Além disso, ela também busca fugir de uma visão individualizada para um olhar mais amplo que não culpabiliza, mas que tenta compreender o que é que se dá ali em relação entre o indivíduo e a sociedade. Senti um caminho muito importante articular esse trabalho com o que estava fazendo no Hip Hop (há 12 anos), e no Rap (há 5 anos), e fui percebendo que daria para conciliar. A psicologia social também se propõem uma atuação de intervenção e posicionamento social. Daí o Rap como ferramenta para me aproximar das pessoas e trabalhar as potencialidades de cada um e da sociedade. Assim que vejo Hap e a psicologia como próximos, além de uma articulação rica e potente.

 

Por que o Rap? Como é este movimento em SJDR?

Eu participo do movimento Hip hop de SJDR há 12 anos, que conheci por meio da Associação Força Jovem, no bairro Senhor dos Montes. Eu tinha 16 ou 17 anos. Entrei porque tinha oficinas de Breaking, que é um dos elementos de dança do Hip hop, assim como do Rap. Daí comecei a dançar Breaking e fui conhecendo o movimento Hip hop. Há cinco anos me aproximei do Hap. O movimento Hip hop de SJDR é muito rico pois temos todos os elementos contidos nele: o artístico, o breaking (dança), o DJ, o Hap, o grafite, e o conhecimento. Considero o movimento de SJDR muito potente e pulsante. Temos aí pessoas que trabalham na linha artística e pessoas que trabalham com questões políticas de transformação social, intervenção e mensagens contra opressão e violência que assolam a periferia. Então temos duas vertentes no movimento como a nova escola e a velha escola do Hip Hop. Pois são formas diferentes de vivenciar esta realidade. Essa perspectiva mais focada na arte, é interessante porque ela acontece muito nessa linha de ocupar espaços, inclusive nos espaços elitizados da cidade, como protesto de mostrar que também fazemos parte desse lugar onde historicamente fomos excluídos. A perspectiva da velha escola é mais direcionada à atuação política e acredito me encaixar mais nela. Atrelada aos ideais do movimento Hip hop de protagonismo, luta e posicionamento da periferia e dos negros.

 

Como trabalhar com Hip Hop em São João del-Rei?

A minha atuação é focada em oficinas, palestras e o Hap, além de shows. Tento trabalhar sempre numa perspectiva educativa, principalmente nas minhas letras, trazendo questões do conhecimento. Transmitir o conhecimento e trabalhar o potencial das pessoas por meio da arte.

 

Nos conte um pouco sobre seu último videoclip Poesia à 6?

Foi construído dentro do projeto Oficina de Rima e Poesia da Perifa a mais ou menos 1,5 ano com os jovens do bairro do Araçá e adjacências.

Trabalhamos a parte histórica do Hip hop e a vivência desses jovens. Para que essas vivências possam se transformar em um caminho para a letra. Trabalhamos com dinâmicas e a parte técnica do Rap. No fim, construímos essa letra. Esses jovens participaram da construção da letra, do videoclip, e de todo o processo criativo. Contamos com a participação das pessoas da comunidade. Além disso, o videoclip que foi construído de forma colaborativa por meio de uma vaquinha online que fizemos.

O vídeo está dividido em quatro partes: introdução do que foi o projeto do que constituiu, a questão racial, parte dos jovens do projeto falando sobre abusos que sofreram e dicas de como as meninas podem se posicionar. No final, a quarta parte, falo do que foi o projeto para mim de poder transmitir conhecimento do Hip hop para ajudar a transformar e nos ajudar a nos percebermos capazes, talentosos, questionadores - nos ajuda a enxergar o lugar de inferioridade na qual a sociedade nos coloca sempre -, e nos ajuda e percebermos o quanto somos fortes e capazes de transformar essa realidade.

 

Por que você abraçou o bairro Araçá e adjacências?

Morei 29 anos no Senhor dos Montes e percebi ali diferenças entre os bairros (Senhor dos Montes, Araçá, São Dimas e São Geraldo), todos são bairros periféricos onde o estado se faz ausente, assim como outros bairros periféricos da cidade. Escolhi o Araçá especialmente por que percebi ali uma oportunidade de oferecer oportunidade de lazer, educação, por que não saúde?, além de já ter desenvolvido outros trabalhos no bairro.

 

Quais as principais dificuldades e necessidades do bairro?

Não me sinto à vontade para falar sobre isso. Mas no início da música temos trechos dos moradores falando da ausência de atividades de lazer para a juventude. Penso que o projeto também entrou como forma de lazer.

 

Você sofre preconceito por ser mulher, negra e artista de Hip hop? Nos conte sobre isso!

Sim, claro! Como mulher, negra e artista! Sofro em vários momentos a diferença no tratamento das pessoas, no olhar em relação a mim por ser mulher e negra. Na universidade vejo isso claramente no tratamento, no olhar das pessoas. Como se eu fosse vista, em alguns momentos, como pouco abaixo das demais. Alguns olham de forma positiva, em termos de representatividade, por ser uma pessoa que apesar das dificuldades chegou em um espaço significativo na sociedade. Mas alguns não olham assim!

O Hip hop já é uma cultura marginalizada, é um movimento que em sua maioria é formado por homens, talvez uma visão meio machista. Dentro do movimento, por exemplo, por ser mulher e negra, e fora do movimento por ser mulher, negra e artista de Hip hop. Como se o fato de ser uma cultura marginal me colocasse também em um lugar marginal. Mas apesar disso tudo, o que eu trago nas letras é justamente a resistência perante isso, pois sei que isso não acontece só comigo. Por isso, minhas letras são focadas nas mulheres negras da periferia.

 

SJDR para você é…

Para nós negros e negras a cidade é um espaço de exclusão. Devido a história como uma cidade colônia, marcada pela colonização e a escravidão. Mas ao mesmo tempo, um espaço onde nos fazemos resistência.

 

Vídeo POESIA À 6

FICHA TÉCNICA:
Composição: Mc Bia (Ana Beatriz Romão do Nascimento), Mc Giovana (Giovana Ribeiro de Paiva), Mc Nathanzim (Nathan Rafael do Nascimento Gualberto), Mc Tavim (Luiz Otávio Romão do Nascimento), Mc Jão (João Artur dos Santos), Mc Mari P (Marina Paula S. do Carmo) e Sarah Souto.
Vozes: Mc Bia, Mc Giovana, Mc Nathanzim, Mc Tavim, Mc Jão e Mc Mari P.
Beatmaker: Cego Egípcio Captação de áudio, Mix e Master: Dj Léo Mix Master (Estúdio Mix Master)
Falas introdutórias: Kiko, Simone Aparecida do Nascimento Santos, Lazara Maria de Assunção e Alexandra Feles
Produção Geral: Mari P, Gabriel Ângelo Fortunato Silvério, Mc Bia, Mc Giovana, Mc Nathanzim, Mc Tavim e Mc Jão

 

#nossagente #cultura #saojoaodelrei #sjdrmg #marip #videoclip

Famosidade
Sobre o Famosidade
Tudo sobre o mundo dos famosos em um só lugar!
São João del Rei - MG

São João del Rei - Minas Gerais

Sobre o município
Notícias de São João del Rei - MG
Anúncio
São João del Rei - MG
Atualizado às 19h17 - Fonte: Climatempo
16°
Muitas nuvens

Mín. 13° Máx. 21°

16° Sensação
14 km/h Vento
82.2% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (06/06)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 13° Máx. 23°

Sol com algumas nuvens
Domingo (07/06)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 14° Máx. 25°

Sol com algumas nuvens
Anúncio
Ele1 - Criar site de notícias