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Opinião Imprensa

O dia que a imprensa local parou para noticiar o apocalipse em Barbacena!

Mal saem os Boletins Epidemiológicos das Secretarias Municipais de Saúde e, automaticamente, já são replicados em uma fração de segundos - como se fossem um grande furo jornalístico.

23/05/2020 23h30 Atualizada há 2 semanas
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Por: Adriano Vianini
Imagem: João Montanaro / Outras Palavras
Imagem: João Montanaro / Outras Palavras

Por Adriano Vianini
Jornalista e Publicitário - Editor-chefe do Portal Mais Vertentes

A quem interessa um furo jornalístico?

Ele é patrimônio do público ou dos jornais e jornalistas?

Eles é um direito do cidadão ou da imprensa?

Desde que começou a pandemia do novo coronavírus, especialmente no Brasil, infelizmente, a imprensa passou a noticiar diariamente as estatísticas apocalípticas de "Novos Casos" e "Óbitos" da COVID-19 como se fossem um troféu!

No Campo das Vertentes não é diferente e, como disse um grande jornalista da região, o jornalismo local "virou canibalismo" e tem superado todos os limites. Talvez pelo fato do surgimento de vários portais e sites de notícias - incluindo o nosso -, além de rádios, jornais, blogs, redes sociais de notícias etc., a concorrência ficou grande! Mal saem os Boletins Epidemiológicos das Secretarias Municipais de Saúde e, automaticamente, já são replicados em uma fração de segundos - como se fossem um grande furo jornalístico do dia. Alguns, mais espertos que outros, ainda fazem ajustes no título ou na arte para "parecerem" diferente dos outros, mas sempre com os mesmos conteúdos. Aliás, como sempre digo "nada se cria, tudo se copia e cola".

Nos últimos dias, este canibalismo se intensificou e me chamou a atenção em relação ao fato ocorrido na EPCAR, em Barbacena, que, infelizmente, ignorou todas as normas de segurança recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e, com isso, registrou até o fechamento deste texto 90 casos da COVID-19 entre seus militares e civis.

Neste sábado (23), foi o DIA DO APOCALIPSE para a imprensa local. A maioria dos jornalistas aguardava ansiosamente pela divulgação do Boletim Epidemiológico do município, que saiu às 22h00, para noticiar o que todos já sabiam - o aumento expressivo de novos casos em Barbacena - só não sabíamos ainda qual número seria. O dia todo foi uma troca de mensagens sem fim para saber quem conseguiria o "furo da notícia" antes do outro. Até ouvi de uma assessora de comunicação que eu "era o décimo que ligava para ela". Após a divulgação pela Secretaria Municipal de Saúde de Barbacena (Sesap), às 22h00, foi um show de replicações e interpretações, na minha percepção, equivocadas. 

Barbacena registrou 218 novos casos da Covid-19 e saltou, em uma semana, de 35 para 253 infectados. Um número realmente expressivo e, claro, impactante. Porém, jogar a responsabilidade para a EPCAR parece uma suposição irresponsável dos colegas tendo em vista que, até o momento, nem a Sesap e nem a EPCAR informaram quantos casos foram confirmados - de fato - dentro da escola militar. A última nota enviada pela Aeronáutica constava 90 casos. Claro, que sempre temos que averiguar e, como bons jornalistas, consultar diversas fontes! Mas já sair evocando o Conselho Municipal de Saúde para suspender o decreto que autoriza a reabertura gradual do comércio, dizer que Barbacena precisa de lockdown, ou jogar os 218 novos casos para dentro da EPCAR são grandes irresponsabilidades em querer ditar o apocalipse da cidade. Primeiro que o Conselho não tem autoridade para isso, pois é apenas consultivo; segundo que cabe ao Prefeito avaliar e tomar medidas; e por último, a EPCAR, apesar de localizada em Barbacena, "é monitorada e acompanhada pela Superintendência do Estado e pela Secretária Municipal de Saúde e responde diretamente ao Ministério da Defesa e ao Alto-Comando da Aeronáutica", conforme informou a própria Prefeitura de Barbacena. Não estou aqui defendendo a escola - pois como disse anteriormente, ignorou as normas recomendadas pela OMS -, e nem dizendo que o município deve reabrir o comércio. Estou apenas pontuando que a decisão deve ser tomada com cautela e de forma responsável pelas autoridades públicas - não pela imprensa que vira e mexe "força a barra".

O canibalismo do "furo jornalístico" da imprensa local está tão preocupante que até anúncios patrocinados nas redes sociais sobre os boletins epidemiológicos a imprensa vem fazendo. Quando na verdade deveria ser ao contrário - a imprensa quem costumava receber patrocinadores e anunciantes! Mais um viva para os números equivocados de quem tem mais seguidores!

A boa notícia é que o furo da notícia não é mais um previlégio apenas das mídias e dos jornalistas. Com o advento das redes sociais e grupos de WhatsApp, vale tudo para ser o primeiro a compartilhar ou "dar um furo" em primeira mão! O furo que era, portanto, a informação exclusiva de um transformada em mercadoria jornalística tornou-se "feira livre". Claro, que essa democratização da informação também levou para o outro lado - os fakes news, mas isso é tema para outro artigo.

O furo foi ameaçado pela internet quando os veículos de comunicação passaram a replicar as informações de outros (com ou sem crédito, com ou sem checagem). O sentido do furo começou a ruir quando uma reportagem produzida em semanas ou até meses era replicada no concorrente poucos segundos depois de sua publicação original. Sem contar que a informação exclusiva deixou, há muito, de ser descoberta pelo jornalista. Há tempos ela é negociada com as assessorias de imprensa. O furo tornou-se moeda de troca, mais uma forma de transformar a notícia em mercadoria.

Mas o jornalismo não irá acabar. Ao bom jornalismo, caberá ainda filtrar as informações disponíveis. Mas este filtro não será absoluto. O público é quem decidirá até onde irá em sua busca por informações. O futuro do jornalismo não está ameaçado, mas o bom jornalismo deverá ajudar o leitor na escolha das informações, indicará o que é importante para ser lido, consultado, mas não terá a pretensão de se esgotar em si mesmo. 

Quanto ao canibalismo preconizado pela mídia local, apesar do Portal Mais Vertentes fazer parte dela, ainda preza pela qualidade, ética, seriedade e bom senso.

 

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