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Especiais ESPECIAL LGBTQIA+

Nova geração LGBTQIA+ é empoderada e não tem medo de "colocar a cara no sol"

Confira alguns jovens bem descolados e empoderados que se identificam, se expressam e, especialmente, lutam por direitos

16/06/2020 16h10 Atualizada há 2 semanas
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Por: Adriano Vianini
Nova geração LGBTQ+. Fotos: acervos pessoais
Nova geração LGBTQ+. Fotos: acervos pessoais

Por a cara no sol: Bordão popular muito utilizado no meio LGBTQ+, no sentido de: expor os desejos sem receios, medos. Ter coragem de enfrentar os problemas. Não se intimidar.

Duas amigas, umas delas está se sentindo triste e feia, a amiga pra ajudar diz: "Põe a cara no sol, mana, bicha bonita não se esconde!" 
Isso no sentindo de que ela precisa melhorar sua autoestima. O bordão foi criado pela transformista cearense, Natasha Martory, e rapidamente ganhou as redes sociais.

Assim como em diversas partes do mundo, no Campo das Vertentes, uma nova geração de LGBTQ+ não tem medo de se expressar, de sair às ruas e, principalmente, enfrentam os problemas de frente.

Confira alguns jovens bem descolados e empoderados que se identificam, se expressam e, especialmente, lutam por direitos:

Fábio Carvalho. Empresário com orgulho em ser gay.

Fábio Carvalho
36 anos
Empresário da moda e Personal Stylist

Memória de ser homossexual desde os 4 anos. "Passei minha infância sabendo que era homossexual, mas tentava não ser, pois pensava que aquilo era errado. Minha família e eu somos extremamente católicos, e nos ensinava que ser gay era errado".

Na adolescência chegou a namorar mulheres, e com isso se sentia infeliz e triste, o que o levou até a uma síndrome de ansiedade e de pânico. Depois dos 20 anos foi quando aprendeu a se aceitar e assumiu sua homossexualidade. Após assumir para a mãe, a preocupação da mesma era como o mundo lá fora iria entender e o que poderia acontecer, mas que ela o amava e não iria interferir em nada.

Foi casado com seu ex-companheiro por 11 anos. "Meu casamento foi tudo normal, natural, como todo casamento. Nunca vi como uma coisa diferente dos demais casamentos, com problemas, com casa, com expectativas normais de qualquer casal, e convivência tranquila com familiares. E nunca tive problemas de preconceito enquanto estava casado".

Sua base é a família. "Uma coisa que me marcou demais foi o apoio da minha família. Sem eles não seria o homem que sou hoje! O apoio da minha mãe, sempre firme ao dizer que 'meu filho é gay, e ponto, e amo ele como qualquer um dos meus filhos,. Tenho muito orgulho do homem e do caráter que ele tem'. Minha mãe sempre se posicionou muito para a família e amigas, e isso me deixa muito feliz, me dá muita força. Chego até me emocionar quando lembro das falas da minha mãe".

Segundo Fábio, nunca sofreu uma homofobia direta. Exceto, segundo ele, no último relacionamento, quando a mãe do seu ex-namorado não gostou de ver uma foto publicada por ele com o filho nas redes sociais. "Meu relacionamento terminou após isso, eles pediu para eu retirar e eu não retirei. Tive que aprender a lidar com uma ex-sogra homofóbica. Eu tinha 35 anos e nunca havia passado por isso, esse preconceito", disse.

Fábio acredita que São João del-Rei é uma cidade aberta para o público LGBTQ+. Ele ressalta que o o fato de ter a UFSJ ajudou nesta aceitação. Mas também há exceções: "As vezes, quando estou na rua com meu namorado, ou demonstro carinho ou afeto como qualquer casal, logo vemos um olhar esquisito ou atravessado. Mas sempre lido com isso de forma muito tranquila. Como sempre tive apoio da minha família, isso nunca me incomodou".

Ainda sobre preconceito e homofobia, Fábio sentiu que houve um retrocesso devido a vitória do presidente Jair Bolsonaro, em que, segundo ele, muitas pessoas voltaram a demonstrar preconceito. "Não é que voltaram a ser homofóbicos, porém esse sentimento era velado - pois era feio ter preconceito. Porém, com a vitória do Bolsonaro, muitas pessoas expuseram novamente e se revelaram preconceituosos e homofóbicos, e pior que ainda sentem orgulho disso", lamenta.

Para finalizar, Fábio Carvalho diz que ser gay não e fácil. "Você ser gay tem que provar o tempo todo que você é bom. É como se você tivesse um peso - cara você é gay - então você tem que ser o melhor no seu trabalho, na sua profissão, em tudo, porque as pessoas te cobram isso para ser aceito na sociedade. O que me incomoda são os rótulos errados. Cada um é um ser particular, portanto rotular é muito limitado. Nunca me senti mais ou menos homem por gostar de homens. Isso nunca me fez ou vai me fazer ser mais ou menos homem, essa é minha essência", disse.

Sobre o movimento LGBTQ+ no Campo das Vertentes, Fábio acredita que "muitos ainda se escondem no armário, devido ao preconceito. O que acaba enfraquecendo o movimento. Claro que não estou julgando, pois cada um sabe o seu momento e as dificuldades. Já conquistamos muitas vitórias, mas infelizmente também sofremos alguns retrocessos. Mas estamos caminhando e, com união, ainda iremos conquistar muitas coisas, porque somos cidadãos, pagamos impostos, movimentamos a economia, amamos e, portanto, merecemos respeito como cidadãos e seres espirituais", concluiu. 

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Thais Marques da Silva
28 anos
Jornalista

Thais contou que já foi bisexual, mas com estudos, conhecimentos e envolvimento com o movimento LGBTQ+, hoje se identifica como Pansexual - tem atração sexual ou romântica por qualquer sexo ou identidade de gênero.

"Me apaixono pela pessoa, pelas características, caráter, não pelo órgão sexual", disse.

Ela conta que já participou ativamente do movimento LGBTQ+ em São João del-Rei. E conta que, no início, "muitas pessoas curiosas  ficavam do lado de fora, na rua, olhando quem entrava para as reuniões e eventos realizados pelo MGRV".

Formanda em jornalismo, pela UFSJ, Thais já atuou em diversos veículos de comunicação da cidade. 

Ela conta que sente grande preconceito por ser apaixonada por futebol. Segundo ela, trata-se de um ambiente homofóbico e que muitas vezes é confundida com Lésbica só por gostar de futebol. "Que mal tem gostar de futebol?". 

Thais também conta com o apoio dos familiares em relação à sua sexualidade foi fundamental. "Graças a Deus minha família me apoia". Mas também não foi fácil para a jornalista. Como muitos LGBTQ+, quando era criança também negava sua orientação sexual. "Comecei negando minha orientação sexual e me comportei como uma 'babaca', e até homofóbica. Demorei um tempo para me entender. Foram anos tentando 'me enquadrar': não sabia se andava de bermudão e boné, ou se andava de menininha", conta ela. E ainda acrescentou que, "não preciso colocar uma etiqueta em mim, só preciso ser sincera comigo mesma e com as pessoas".

Segundo Thais, muitas pessoas acham que o fato dela ser reconhecer como Pansexual, pode ser interpretado como perversão. "As pessoas já acham que ser gay é só putaria. Muitas vezes ouvi 'não vou te levar à sério, você só quer putaria e não ama ninguém'. Este tipo de etiqueta ou estigma ainda existe", contou ela.

Ela contou também que quando começou a frequentar as reuniões do movimento LGBTQ+, ela tinha medo de ser vista como "a turminha de gays da cidade". Mas, segundo ela, foi o movimento quem a ajudou a aceitar sua orientação e suas verdades. "O trabalho do movimento LGBTQ+ é extremamente importante para a sociedade de SJDR aprender a aceitar, mesmo que não concorde", explica.

Segundo Thais, a sociedade São-Joanense está mais aberta para a comunidade LGBTQ+, mas também concorda que nós últimos anos houve retrocessos. 

Fábio Silva é dançarino e vice-presidente do MGRV.

Fábio Geraldo da Silva
Vice-presidente da MGRV
22 anos

O jovem São-joanense Fábio Silva se identifica como Fluído (sem definição) ou 2/Two-Spirit (Dois Espíritos) - utilizado por nativos norte-americanos para representar pessoas que acreditam ter nascido com espíritos masculino e feminino dentro delas.

Fábio é dançarino e vice-presidente do Movimento Gay da Região das Vertentes (MGRV). Segundo ele, "o movimento tomou uma proporção muito grande, mas ainda está um pouco apagado. Precisa colocar mais a cara na rua e ainda tem muito para conquistar", explicou.

Na família, ele diz sua sexualidade ainda é novidade, mas não sofre nenhum preconceito pelos familiares. "Na minha família ainda é novidade. Na rua a gente percebe que o povo olha e faz algum tipo de deboche, mas não deixo me atingir", ressaltou.

Segundo ele, o principal objetivo do MGRV é conseguir mais direitos na sociedade. "ainda temos dificuldades de interlocução com a atual administração pública para que eles se comprometam a cumprir as leis conquistas ao longo dos nossos 13 anos de história", ressaltou.

Extremamente sensível para cultura e arte, Fábio também ressaltou que "temos uma prefeitura que não financia a cultura, não financia a política de saúde da população LGBTQ+, não faz nada em termos de prevenção contra a violência ou a discriminação, e ainda, desativou o Conselho Municipal LGBT da cidade", disse.

Segundo ele, ainda há muita discriminação. "É difícil para uma pessoa trans ou um gay afeminado conseguir trabalho". Segundo ele,  também existe violência contra a comunidade LGBTQ+, mas diminuiu bastante nos últimos anos.

Segundo Fábio, os direitos LGBTQ+ ainda não são conhecidos por todos e, para isso, "o movimento precisa ter visibilidade - não para brigar com os outros - mas mostrar que estamos ali, que existimos, e com união seguiremos em frente, conquistando direitos e respeito". concluiu.

Ruby 

 

Ruby Rivera de Oliveira
Digital Influencer
33 anos

Ruby Rivera é a mulher transsexual - pessoa que se identifica com um sexo diferente do seu nascimento - mais conhecida do Campo das Vertentes. Extremamente digital, Ruby conta que assumiu sua sexualidade gay, em 2003, porém só a partir de 2008 se identificou como mulher transsexual. 

"A gente nasce mulher no corpo errado. Sou realizada em me assumir como mulher transsexual. Tira um grande fardo das costas, esconder coisa que nunca fui", explica.

Ela também contou que uma das grande conquistas dos LGBTQIA+ foi poder obter sua identidade social, na qual permitiu que todos os transgêneros possam retirar documentos e serem chamados pelo nome social em diversos órgãos públicos. "Sou realizada com meu nome de mulher. Era horrível quando ía em algum lugar e a pessoa te chama pelo nome masculino”. Leia mais aqui.

Assim como todos os LGBTQIA+, Ruby também já presenciou preconceitos na cidade. "As pessoas aceitam, mas não respeitam". Porém, segundo ela, "para quem se assume LGBTQIA+, coragem é primordial. Eu impus minha autoridade para conquistar respeito por aqui. Sofri preconceitos e tive que enfrentar diversos bullying, mas me deu mais forças e coragem para me aceitar e ser feliz como sou”.

Ela conta que também teve que melhorar sua imagem. "Antigamente as pessoas tinham vergonha de falar comigo porque eu era meio escandalosa. Na verdade eu até queria forçar a barra, mas isso mudou, e hoje só faço isso de forma militante", contou. 

Ruby lutou para conquistar seu espaço. O mais importante, segundo ela, "foi vencer a transexualidade" (foi profissional do sexo e não pretende voltar mais). Hoje, Ruby é procurada para ser garota propaganda de diversos tipos: lojas de roupas íntimas, cabeleireiros, maquiagem, produtos de beleza etc. Quando saiu uma de suas publicidades em outdoor, ela conta que "teve um sonho de criança realizado". Hoje, Ruby também faz 'bicos' de Personal Organizer, vende roupas íntimas, salgados e, segundo ela, até faz faxina. “Hoje sou procurada pelas pessoas, pois sou do povão, diferente das outras daqui”, comentou. Ruby, também faz palestras em universidades, produz músicas e vídeos no seu canal do Youtube e tem paixões por novelas, cachorros e cavalos.

Flávio Costa - modelo, maquiador e drag queen

 

Flávio Costa
29 anos
Ator, maquiador e Drag Queen

O Juizforano Flávio Costa é ator, maquiador e Drag Queen nas horas vagas. Se reconhece como bissexual. "Não gosto de rótulos, mas se é para me enquadrar em um, posso ser bissexual".

Atualmente morando em São Paulo, Flávio tem como hobby se transformar em Drag Queen. "Amo a arte da transformação. E sou fanático por RuPaul" - reality show americano com concursos de Drags Queens. 

Ele disse ainda que a arte de se transformar veio de infância. "Quando criança ficava brincando com meus amigos de se maquiar e colocar roupas femininas, tipo salto alto. Minha mãe ficava enlouquecida (risos)", conta ele.

Flávio diz não ser muito envolvido com o movimento LGBTQIA+ por falta de tempo. "Mas sempre apoio e respeito os movimentos. Precisamos de uma comunidade unidade, pois com esse 'desgoverno' estamos retrocedendo décadas, inclusive em direitos LGBTQ+", reforçou ele.

Flávio adora viajar para a região das Vertentes. Sempre que pode vem a Tiradentes e São João del-Rei com seu marido. "Amo Tiradentes, aquelas ruas me inspiram", ressaltou.

 

 

 

Jonathas Santos
Se transforma em Stayce Carter 

Jonathas Esteves dos Santos
25 anos
Auxiliar de cozinha, chapeiro e nas horas vagas trabalha na área da beleza como designer de sobrancelhas e maquiador.

Jonathas é transformista se reconhece como Pansexual. Desde criança sempre percebeu ser uma criança "diferente" das outras. "Na adolescência um amigo próximo estava trabalhando com maquiagens e, um belo dia, ele pediu pra que eu servisse de modelo para testar novos produtos. O resultado foi além do que esperava! Eu amei me ver no espelho e desde então comecei a me "montar" que é um linguagem que usava quando mais novo. E desde os 16 anos não parei mais!", contou.

A Drag é Stayce Carter, personagem de Jonathas, foi um nome dado por amigos mais próximos. "Stayce é uma pessoa destemida que gosta muito de dançar e levar mensagens de amor e respeito para qualquer ser humano", explica.

Quanto ao transformismo, Jonathas explica que "trata-se da criação de um personagem, tendo como termo usual Drag Queen, sendo então uma manifestação artística e diferenciando-se da transexualidade, que trata-se de pessoas que não se identificam com o gênero que nasceram", explica.

O artista disse que sempre admirou cantoras internacionais como Madonna, Whitney Houston e Beyoncé. Segundo ele, "são artistas muito inspiradoras para pessoas que sentem fora do nicho onde vivem, e transmitem mensagens enormes de paixão pela vida e pela arte, e me inspiram muito, por isso sinto que devo repassar para outras pessoas".

Sobre preconceitos, Jonathas conta que "no meio onde vivi houve pessoas que gostavam de apontar e discriminar pessoas. No começo eu sofria o preconceito calado, pois não fui muito bem instruído. Mas hoje que sou uma pessoa mais velha e já passei por bastante coisas na vida. Hoje, se for preciso, bato e frente com argumentos plausíveis que mesmo com muita dificuldade e paciência as pessoas começam a entender que não há mal algum em sermos diferentes", disse.

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