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Diversidade LGBTQIA+

Homossexuais podem doar sangue: solidariedade venceu o preconceito

Diante das mortes em massa, causadas pelo coronavirus, o sangue das pessoas gays traz esperança.

21/06/2020 11h18
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Por: Adriano Vianini
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Élio Gasda*

A solidariedade corre em nossas veias. Doar sangue é um ato de amor que foi judicializado! No dia 08 de maio STF derrubou uma norma homofóbica e inconstitucional do Ministério da Saúde que proibia homens “gays” de doarem sangue. O ministro-relator Edson Fachin considerou o conceito “grupo de risco”, “retrógado e ultrapassado”. Vitória da vida, da dignidade humana!

Após muita luta social o resultado do processo, que se arrasta desde 2016, causou comoção e alegria a muitas pessoas que foram excluídas da possibilidade de doar sangue, apesar do imenso desejo em fazê-lo. Contudo, esse momento histórico nos remete a uma reflexão mais profunda sobre essa decisão e seus efeitos, como nos sugere João Victor da Fonseca Oliveira, mestrando em História pela UFMG e integrante do Grupo de Pesquisa “Diversidade Afetivo-sexual e Teologia” da FAJE.

Qual sangue importa? Atualmente, quase 18 milhões de litros de sangue são desperdiçados por ano, por puro preconceito (All Out Brasil). Uma única doação, 450 ml, pode salvar até quatro vidas. O fato ganhou evidência em função da pandemia do coronavírus. Bancos de sangue cada vez mais esgotados, além da diminuição das doações. Mas não só por isso. Esse julgamento histórico nos remete às formas precárias de reconhecimento, que impedem a percepção da vida de tantas pessoas, vidas que importam, os impedindo de um gesto solidário e a participação política.

João Vitor, a partir de seus estudos, entende que alguns enquadramentos (normativos, jurídicos, políticos, culturais, etc) moldam nossa forma de ver, agir e sentir: “aquelas molduras que restringem e ao mesmo tempo configuram o nosso olhar” (Judith Butler). Assim, não haveria maneira mais eficaz de definir o que é vida, a partir desses enquadramentos que terminam autorizando, ou não, a vida - ou o sangue - de alguém.

A vida de algumas pessoas tem sua vulnerabilidade aumentada. Uma precariedade que passa precisamente pelo corpo. Nesse caso, gravado também no sangue. O prazo para doação de sangue por homens homossexuais era de 12 meses após a última relação sexual. Porque o mesmo rigor não era exigido para pessoas que se relacionam com o sexo oposto? A ideia reside no risco atribuído a um grupo, e não aos muitos comportamentos de risco possíveis, dos quais qualquer pessoa é capaz. Esse gesto traz consigo um estigma. Transforma as pessoas gays em “grupo”, e pior, “de risco”. 

Os motivos para a restrição à doação de sangue por homens gays é histórico: a epidemia de HIV, no início dos anos 80, imediatamente associada aos corpos “masculinos” e “gays”. O imaginário social tomou conta do debate público, ampliando o efeito estigmatório e discriminatório que, por si, reduz as possibilidades de vida. Ser conivente com discriminações é favorecer as práticas de violência e morte, pois “(...) acreditamos que alguém com estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida”(Ervinn Goffman).

O discurso médico tenta estabelecer uma “verdade” sobre os corpos. Ainda assim, a interdição à doação de sangue significa o aumento da precariedade das condições de possibilidade de uns em detrimento dos outros. Assim, temos um estigma atuando junto ao discurso moralizante, na esfera pública, estabelecendo relações, quase sempre, arbitrárias dentro da suposta correspondência entre homossexualidade-HIV-risco-doença-desvio-promiscuidade-perigo. Ao mesmo tempo em que se afirma o que é “normal”, “aceitável”, “saudável” e, portanto, “desejável”. Isso leva a percepção de como atuam esses tipos de enquadramentos ultrapassados e profundamente violentos.

A boa notícia do STF veio em contexto de um governo homófobico. Devemos perguntar: Quais corpos têm de se explicar e se defender na sociedade? Ainda estamos no marco da tentativa institucional de reconhecimento das pessoas LGBTQIA+ ? Do sangue das pessoas gays?

Essa decisão histórica também significa mais um passo na despatologização da homossexualidade, que embora tenha sido promulgada, continua demandando outras formas de reconhecimento, menos precárias e discriminadas.

Do corpo estigmatizado emerge vida nova. Sangue é vida! As pessoas LGBTQIA+ podem salvar vidas. O pavor de alguns (“O sangue de um homossexual pode contaminar o sangue de heterossexual” Jair Bolsonaro/2011), emerge dessa constatação. A decisão do STF pode ser um daqueles “clarões que relampejam em um momento de perigo” (Walter Benjamin).

Diante das mortes em massa, causadas pelo coronavirus, o sangue das pessoas gays traz esperança. Ironicamente, a epidemia que levou à estigmatização delas, nesse momento, dá lugar a uma pandemia, e revela uma condição da qual todos participamos: a fragilidade de vidas precárias. Somos todos profundamente dependentes uns dos outros. A pandemia nos ensina que nossas vidas são frágeis e estamos entregues, de alguma forma, aos cuidados dos outros, conclui João Vítor.

Em meio à fragilidade humana exposta pela pandemia, podem aflorar gestos de amor à vida e de solidariedade, como doar sangue para nossos irmãos e irmãs. Para papa Francisco é urgente, “em primeiro lugar, reafirmar que cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito, procurando evitar qualquer sinal de discriminação e, particularmente, toda a forma de agressão e violência” (Amoris laetitia, n. 250).

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

Publicado na DomTotal

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