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Opinião Artigo

Nivaldo de Andrade: um candidato a prefeito de novela

Na vida real, em São João del-Rei, terra de ex-presidente e grandes políticos, a cidade ficou estacionada no tempo como as antigas novelas.

05/07/2020 12h55 Atualizada há 1 mês
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Por: Adriano Vianini
O Bem Amado voltou como série na Globo em 1980 - Foto: Divulgação
O Bem Amado voltou como série na Globo em 1980 - Foto: Divulgação

São João del-Rei sempre foi um cenário para séries e novelas de época com um belíssimo patrimônio histórico e cultural; todavia, ainda pouco explorada em relação às vizinhas e queridas Tiradentes, Carrancas e Prados. Há quase 25 anos São João del Rei também virou uma hilária cidade das novelas da Globo, como Sucupira (que criou um símbolo do Odorico Paraguaçu, de O Bem Amado, de 1973), Tubiacanga (Fera Ferida, 1993), Asa Branca (Roque Santeiro, 1986), e muitas outras.

De prefeito à personagens caricatas da Globo, como Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo); corrupto e demagogo, mas adorado pelo povo; ou Sassá Mutema (Lima Duarte), um bóia-fria que foi copiado por um poderoso fazendeiro que acaba sendo eleito prefeito; ou Feliciano (Tarcísio Meira) que convenceu os moradores de Tubiacanga que a cidade havia ouro com seus discursos eloquentes, entre outros personagens da história da teledramaturgia. 

Nivaldo de Andrade, indiscutivelmente, já entrou para os anais do anedotário da política brasileira como uma das figuras mais caricatas, ridículas e, ao mesmo tempo, queridinho pelo povo São-Joanense. Suas gafes, impropriedades e improbidades administrativas já se tornaram símbolo da história da cidade, e representa bem um arquétipo da classe política brasileira da atualidade.

Sempre tidos como provincianos, tacanhos, subservientes e geralmente guiados por interesses próprios, são sempre apresentados como figuras exóticas. Microcosmo que é do país, o município nas novelas é macro em se tratando das alegorias que apresentam: é o lugar do exagero e da caricatura, não raro com intenções de crítica social e política (em tons mais vibrantes, dependendo do autor).

Aqui em São João del-Rei, o populismo do atual prefeito ganhou seu voto! Além do carisma e dos discursos que apelam em nome do "povo" e de "Deus", origem humilde, estereótipo caricato e de “homem simples”, Nivaldo de Andrade é tido, por ele mesmo, como o “prefeito dos pobres” ou “melhor prefeito do Brasil”. Pensando em um nome para a próxima novela da Globo, quem sabe, de Aguinaldo Silva, a “Cidade do Asfalto”, Nivaldo de Andrade, um ex agiota, semianalfabeto, que veio de baixo e de um antigo bairro (hoje a cidade de Santa Cruz de Minas), e se tornou prefeito de SJDR por três vezes. Mas ao ficar rico na política, se juntou à velhos inimigos políticos, fez grandes amigos advogados, juízes e promotores, e vai morar em um belíssimo sítio na histórica e rica Tiradentes.

Nivaldo de Andrade é o típico prefeito que continua governando sob liminares. Mas sua grande façanha é governar “para - quase - todos”: Seu principal lema poderia ser “Asfalto para Todos”, pois adora asfaltar as ruas dezenas de vezes, com produtos de baixíssima qualidade, e jogar o exaurido sistema de água e esgoto para baixo do asfalto. Para os pobres: restaurantes populares, cestas básicas, sacos de cimento, vales supermercados e empregos em  caixa de supermercados ou farmácias (nada contra essa nobre função - trabalho é digno para todos, mas a cidade não pode viver só disso!). Para os ricos, ele consegue manter o sistema do "Toma Lá , Da Cá" - antigo programa humorístico da Rede Globo - funcionando muito bem: com uma cidade empobrecida em todos os sentidos, os pobres só consomem dos comerciantes da cidade e, esses por sua vez, apoiam o nobre candidato do povo.

Mas o que torna Nivaldo de Andrade ainda mais caricato, assim como Odorico Paraguaçu, por exemplo, são as retóricas ao mesmo tempo cafonas, grandiloquentes e vazias de seus pronunciamentos. Essa é apenas uma pequena canja do estilo arrebatador de Nivaldo de Andrade e outros personagens de novela tacanhos de conduzir os debates públicos no mundo da Sucupira imaginária. 

Na vida real, em São João del-Rei, terra de ex-presidente e grandes políticos, a cidade ficou estacionada no tempo como as antigas novelas. Enquanto alguns políticos daqui ganham proporções nacionais e tornam-se até presidentes; por aqui a única ambição de Nivaldo de Andrade parece ser dinheiro e ser prefeito daqui mesmo!

Enquanto as cidades de Sucupira, de Odorico Paraguaçu, Tubiacanga, de Fera Ferida, e Asa Branca, de Roque Santeiro, tiveram desfechos inesperados que só a teledramaturgia faz; São João del-Rei, no interior de Minas Gerais, vai ficando esquecida na história: com saúde precária, educação de baixa qualidade, sem progresso e sem empregos, jovens desempregados, povo empobrecido, sem áreas de lazer, turismo mal explorado e por aí vai...

A vida pública é e sempre foi um palco e a teatralização é inevitável. Certa vez, perguntaram ao ex-presidente Bill Clinton como ele definia a política. Ele respondeu: A política é igual a Hollywood, só que com gente feia.

No mundo da ficção, Odorico Paraguaçu representava uma caricatura porque não conseguia agir fora dos limites estritos do roteiro que lhe foi imposto e que, a ele, cabia apenas seguir depois de decorar. No mundo real, Nivaldo Andrade e outros Odoricos representam uma renúncia àquilo que é mais valioso nas democracias: a coragem de agir em favor de todos e não para si próprios, sem os grilhões dos roteiros pré-estabelecidos que podem arrancar aplausos efêmeros. Mas a vida real exige mais do que performances teatrais!

Sucupira parecia um lugar ensandecido onde Odorico deitava e rolava na ignorância dos humildes habitantes do lugar. Isso lhe granjeava apoio efêmero e maquiava a falta de propósito de sua gestão. Por aqui, a tupiniquim São João del-Rei, nada disso é diferente da ficção, porém, os desfechos nas novelas sempre surpreendiam os telespectadores. Já por aqui, já se passaram 25 anos e nada mudou!

Seus opositores também ganhavam com o clima de hospício: tinham um grande adversário para se contrapor na disputa mesquinha pelo pequeno poder. Assim, Sucupira seguia em frente: todos cumprindo rigorosamente o seu papel, enquanto os problemas reais da cidade ficavam de lado.

Senhoras e senhores, vamos colocar de lado os entretantos e vamos direto para os finalmentes.
Eu estou aqui para matar a cobra e mostrar o pau.
Porque comigo é pão pão, queijo queijo.

Aviso aos Odoricos: atores e líderes não são a mesma coisa, assim como espectadores e eleitores são diferentes. 2020 está aí!

Vamos às urnas?

Adriano Vianini 

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