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Opinião Artigo

Comércio de São João del-Rei já passou da hora de se reinventar! Perdeu o trem!

Quem disse que mineiro não perde o trem? O varejo de São João del-Rei 1.0 não só perdeu o trem, mas está parado na estação do século passado!

25/07/2020 11h24 Atualizada há 3 semanas
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Por: Adriano Vianini
Faixas de socorro no comércio de SJDR. Foto: divulgação redes sociais
Faixas de socorro no comércio de SJDR. Foto: divulgação redes sociais

Por Adriano Vianini*

A pandemia do novo coronavírus fez estragos irreparáveis nas áreas da saúde, na vida social das pessoas e especialmente na economia. Durante esta semana, diversas lojas do centro de São João del-Rei, em Minas Gerais, fixaram faixas em suas portas pedindo "Socorro" ao comércio e aos empregos, sendo que, lamentavelmente, muitas delas fecharam as portas de vez. Na capital mineira, não está diferente: o famoso e glamuroso BH Shopping também teve dezenas de lojas fechadas durante a semana.

É triste ver um sonho sendo fechado! Já passei por isso e me solidarizo com todos os comerciantes, especialmente meus amigos que lutam para manter seus pequenos varejos.

O novo coronavírus não trouxe apenas um vírus mortal e lojas fechadas! Mas também gerou milhares de desempregados, queda na renda dos brasileiros e, com isso, fez emergir um novo comportamento do consumidor: mais seletivo nas compras, que prioriza produtos essenciais, além de novos hábitos de compras pela internet.

A má notícia é que, segundo analistas, a retomada da economia, do crescimento econômico e, consequentemente, do emprego e da renda, poderão demorar cerca de 5 a 10 anos. Portanto, toda crise traz oportunidades e o varejo de São João del-Rei já passou da hora de se reinventar. Aliás, já perdeu o trem, como se diz por aqui!

De acordo com uma pesquisa do Sebrae, realizando em abril de 2020, 89% dos pequenos negócios enfrentaram queda no faturamento devido às medidas de isolamento no país. 36% dos entrevistados afirmam precisar fechar a empresa permanentemente em um mês, caso as restrições permaneçam por mais tempo.

Em Minas, o Sebrae mostrou que 34,5% dos pequenos negócios precisaram adaptar seus formatos para continuarem em funcionamento. Os estabelecimentos em atividade, 44% estão funcionando em horário reduzido como forma de diminuir custos. Além disso, para 39% dos entrevistados, a estratégia foi apostar nos serviços de entrega em domicílio e via vendas online. Além disso, para ganhar fôlego, 19% das empresas afirmaram estar fazendo o rodízio de empregados e 18% optaram pelo trabalho remoto para seguir com suas atividades.

São João del-Rei não é diferente do restante do Brasil e do mundo! 

Com uma Associação Comercial fraca e que só olha para o próprio umbigo e para os grandes comerciantes, criou-se o slogan "Valorize o Comércio Local", porém esqueceram de avisar e combinar com os empresários locais. Leia esse depoimento compartilhado nas redes sociais:

Valorize o comércio local, eles dizem.

- Amigo, você trabalha a cadeira de escritório X da marca Y - eu disse ao comércio local. 

- Trabalho sim, custa Z (20% mais caro que o valor na internet).

Pensei que 20% é foda, mas valorizar o comércio local é importante, o dinheiro circula na comunidade, ajuda os pequenos negócios, mantém empregos...

- Pode me entregar uma, por favor, vou te passar o endereço.

- Cara, só não tenho pronta entrega, tem que encomendar. A fábrica está pedindo 90 dias.

- Caramba! 90 dias? Tô comprando uma cadeira de escritório ou um um caça Rafale? Em 90 dias eu mesmo consigo produzir até uma cozinha completa Todeschini com armário retrátil. Se quiser encomendar de mim, te entrego a cadeira em 15 dias, com frete grátis ainda. - Eu não falei isso, mas foi o que passou minha cabeça nos 5 ou 6 segundos que o olhava com cara de paisagem.

- Não precisa encomendar não, quando tiver na loja você me dá uma ligadinha então que a gente negocia.

É comércio local, assim você força a amizade.

Cidade ainda está no Varejo 1.0

Pois bem, junto a isso, há décadas que outras centenas de São-Joanenses reclamam do mau atendimento, da falta de respeito de muitos lojistas pelos clientes e funcionários, além de preços abusivos. A falta de capacitação, salários dignos, e de estratégias de marketing para captar e fidelizar clientes parecem inexistir em grande parte do comércio local. Em nenhum lugar do mundo eu vi uma cidade turística fechada em feriados e finais de semana de intensas movimentações. Sem contar, claro, as vitrines velhas e cafonas que há centenas de anos imperam na cidade.

Leia esse outro depoimento compartilhado nas redes sociais:

Estou achando "linda" a comoção dos empresários unidos, os vídeos com trilhas emotivas e tudo... Nem parecem aqueles que tratam mal o cliente, que burlam o código de defesa do consumidor diariamente, que tratam mal quem trabalha pra eles... Que contratam e pagam pra uma função e o contratado exerce mais de uma... Ah, nos poupe! Sim, é preciso ter um consenso e fiscalização real para que empregos não sejam mais perdidos e contratos rompidos, mas os cabeças dessa "comoção" são os piores...

Mas você empreendedor São-Joanense deve pensar: “Ah, mas são apenas uma ou duas pessoas reclamando”. Errado! E perdeu o trem novamente!

O e-commerce brasileiro faturou R$ 27,3 bilhões de maio a junho de 2020 e segue tendência mundial de crescimento. As compras online em supermercados puxaram crescimento do e-commerce brasileiro. Nos EUA, número de novos shoppers online cresceu 7,5% em maio.

A chegada do novo coronavírus transformou os hábitos de compra dos brasileiros: o isolamento social fez com que muitos passassem a consumir todo tipo de itens pela internet. Um crescimento de 222% em relação ao mesmo período do ano passado nas categorias Alimentos e Bebidas, atrás apenas de Cartões-presente (+610%).

Uma pesquisa da Ebit/Nielsen feita entre os dias 19 e 25 de março de 2020 mostrou crescimento de 96% dos supermercados online. No mesmo período, a média de crescimento do e-commerce em geral foi de 13%. A participação dos mercados no comércio online passou de 4% para 7%.

Na loja física, do varejo, o consumidor conta com estoque imediato, dúvidas sanadas rapidamente pelos vendedores, poder experimentar o produto (dependendo do segmento), ao contrário da loja virtual, que traz certa insegurança por conta de confiabilidade no fornecimento de dados, demora na entrega. Mas até a demora na entrega já foi sanada! O prazo para entrega de vendas online para São João del-Rei reduziu de 15 para 7 a 10 dias. Eu mesmo compro quase tudo pela internet!

Se você pensa dessa forma, talvez ainda esteja separando os canais de compra. Mas a grande questão é que esses canais são apenas complementares. Físico e online estão diretamente ligados e o maior desafio do varejo passou a ser fornecer significado e coerência entre consumidor e negócio.

Diante desse panorama, o varejo precisa se repaginar com ações simples como planejar melhor a experiência de compra dos clientes em uma era 100% digital. Outras mudanças são apenas conceituais: dimensionar o ambiente de compra para que seja adequado e parte de uma estratégia de construção da marca, que, por sua vez, precisa agregar mais e melhorar sua contribuição para continuar existindo.

Costumo usar a máxima de que os consumidores “esperam algo diferente na loja física”, algo fora do padrão do que já está na tela de seu computador, smartphone ou tablet. E o melhor a se fazer é pensar exclusivamente em como melhorar o espaço físico, as vitrines, produtos diferentes da concorrência e não pensar apenas no “terror” que a tecnologia trouxe às lojas.

Alguns comerciantes adotam o atendimento personalizado como principal atributo de experiência de marcam além de usar ferramentas tecnológicas (como tablets, smartphones e outros gadgets) para tornar ainda mais ímpar o momento no qual o consumidor coloca os pés em sua loja.

Varejo 4.0

Isso mesmo - já estamos na era do varejo 4.0. Os produtos já viraram uma espécie de commodities! Se o cliente citado neste artigo quer comprar uma cadeira, basta ele acessar o Mercado Livre e encontrará o modelo que deseja em dezenas de lojas com preços muito melhores que os praticados em São João del-Rei, sem precisar sair de casa e aguentar a cara fechada do vendedor, além dos  preços abusivos. Sim, comerciante São-Joanense eu cliente mudou! A cidade famosa por ter uma população de aposentados também trouxe uma nova geração de consumidores antenados e que não querem mais se sentir apenas mais um cliente.

Atualmente, os consumidores não buscam apenas por um produto de qualidade; eles querem aprender, ver, tocar, sentir, experimentar, escolher, se divertir, comparar, ser reconhecido, levar o produto, avaliar, criticar, curtir, elogiar e recomendar. A tecnologia e o mundo real se misturam para criar vínculos emocionais e sociais com os clientes. O meio digital é usado como canal de auxílio na compra, e a loja física aprimora essa experiência.

Este novo modelo veio para mudar a proposta de valor do varejo e estabelecer um diferencial competitivo no mercado, utilizando as tecnologias para agilizar a coleta de informações do seu público. Compreendendo os hábitos dos clientes, você consegue identificar qual o meio que eles usam para fazer compras.

Portanto, meu caro empreendedor, você aprendeu nesta pandemia que a prefeitura, a associação comercial, o governador e o presidente não farão nada por você e seu negócio. Se continuar esperando isso, ficará parado na estação cujo o trem já passou há dezenas de anos. É hora de ser reinventar, observar e agir em busca desse novo consumidor "perdido" que emerge em meio a uma pandemia e cujo comportamento de consumo tende a permanecer no mundo digital ou das experiências. 

 

*Adriano Vianini é jornalista e publicitário com mais de 20 anos de experiências em empresas nacionais e internacionais. Também é São-Joanense e editor-chefe do portal de notícias Mais Vertentes e sócio-diretor da agência AV+ Comunicação e Marketing.

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